O CAROÇO E O PARAFUSO
O aviso chegou em três fragmentos sobre a borda do fogareiro. Tarifa de espera para carga mineral. Reajuste de trânsito. Valor das porções atualizado ao meio-dia. Ilva leu cada linha enquanto raspava o fundo da tigela com a colher de cabo rachado. Havia farinha presa na madeira, endurecida desde a manhã anterior. O homem segurava a peneira junto à ventilação do corredor. A malha vibrava com o ar que saía do armário, e as formigas se amontoavam no rasgo, procurando a umidade que já não estava ali. Renan dormia sentado contra a parede externa, a cabeça inclinada sobre o ombro. Seus dedos continuavam fechados. A chave dele permanecia sobre o balcão de Antônio, perto da vasilha com os seis caroços e o parafuso. A tarifa subira porque os compradores de longe queriam metal sem atraso. A carga que deixava Buritaçu passara a valer mais antes de alcançar a estrada. Na cozinha, isso aparecia no preço da farinha que Antônio ainda tinha para vender, no milho que chegaria menor, na lista de crédito que o bar receberia ao fim do ciclo. A operação mineral chamava aquilo de ajuste de representação. O homem retirou a peneira da ventilação por um instante. Duas formigas atravessaram o rasgo e alcançaram a canaleta. Ele as acompanhou com os olhos, depois recolocou a malha. Você vai dizer a ele, falou. Ilva continuou raspando a tigela. Vou. Quando. Ela virou a colher. A madeira trazia um fio de massa seca, da largura de uma unha. Quando eu souber onde ele está. Você sabe onde a mensagem chega. O ponto de presença de Antônio permanecia aceso no terminal doméstico. Não marcava lugar. Indicava somente que o corpo dele ainda passava por uma zona de leitura, alguma parada entre Buritaçu e a capital, alguma fila onde a cara de cada passageiro rendia um crédito de permanência à empresa de trânsito. Ilva colocou a tigela no chão. O homem soltou a peneira e se apoiou na parede, poupando o pé ferido. A membrana escura aparecia acima do sapato preso pelo sangue antigo. Eu comi a porção dele, disse. Fiquei na casa dele. Dividi a dívida dele. Você usou a água dele na muda. Usei. Ele esperou mais alguma coisa. Ilva limpou o polegar na faixa de algodão entre os dedos. Você nomeou a chegada como se fosse um favor, falou ele. Eu pedi para você avisar. Você deixou a frase parada desde ontem. A ventilação soltou uma corrente de ar quente contra a peneira. Renan abriu os olhos e demorou a reconhecer a cozinha. Levantou devagar, passou pela vasilha dos caroços sem mexer nela e saiu para o quintal. Não pediu licença. A casa tinha aprendido a medir cada presença, mas ninguém ali precisava contar a saída dele. Ilva abriu o canal de Antônio. A tarifa de mensagem mostrava duas opções. Uma entrega simples consumiria o crédito de preparo da noite. A outra enviaria voz inteira, com imagem do rosto e confirmação de escuta, por três vezes o valor. O homem se aproximou. Manda a inteira. A cozinha fica sem preparo. A gente come frio. Ela levantou o rosto. Ele tinha a barba mais cheia do que nos áudios antigos. Nos áudios, a voz chegava limpa demais, aparada pelo filtro que retirava respiração, tosse, demora. Ali ele segurava a borda da mesa como quem segura uma coisa que pode pertencer a outro. Você quer que ele me aceite, disse. Quero que ele saiba antes de entrar por aquela porta. Ilva selecionou a mensagem inteira. O terminal abriu o campo de gravação. Ela colocou o aparelho entre os dois, sobre a mesa onde Antônio separava os pedidos do bar e apagava mensagens para o filho antes de enviá-las. O homem ficou calado até o primeiro sinal de captação terminar. Antônio, meu nome não precisa ficar no endereço se você não quiser. Eu cheguei antes de você porque não tinha para onde voltar. Comi uma parte da sua comida. Dormi na sua casa. A água que eu bebi entrou na sua dívida. Ilva não me trouxe escondido. Eu pedi para ficar. Se você mandar, eu saio quando meu pé deixar. Ele parou. Ilva viu o campo de voz continuar aberto. Esperou. O homem respirou perto demais do aparelho. A muda morreu, ele disse. A água usada nela era sua. Eu estava aqui. Ela fechou o canal antes que ele encontrasse outra frase. A entrega saiu inteira. O crédito de preparo noturno apagou-se da cozinha. O fogareiro manteve apenas a linha de emergência, suficiente para aquecer uma caneca, insuficiente para cozinhar para quatro. Por alguns segundos, os dois olharam o ponto de presença de Antônio. A resposta veio antes de o terminal reduzir a intensidade. Não trazia imagem. O canal devolveu a voz dele com ruído de veículo e uma criança chorando ao fundo. Eu ouvi. Não saiam da casa. Eu volto quando der. A gravação terminou. Não havia promessa de hora, nem autorização limpa. Havia um verbo no plural, estreito como a faixa de sombra atrás do tanque. O homem sentou no banco de Antônio. Ilva permaneceu em pé. Ele disse para não sair, falou. Disse para não sairmos. Você ouviu. Ouvi. Na rua, uma carreta mineral passou devagar, puxando poeira até o alpendre. O valor novo da carga tinha aberto prioridade para ela. Atrás, Valdo esperava com o veículo de água parado junto à esquina, o reservatório ausente deixando a carroceria menor do que a sombra que fazia. Ilva pegou os caroços da vasilha e colocou cinco no compartimento baixo da cozinha. Deixou o menor sobre a mesa.
O parafuso ficou ao lado dele. O homem puxou a tigela vazia para perto dos pés. A gente come o quê, perguntou. Ela olhou o fogareiro apagado. Farinha com água. Tem pouca. Tem para hoje. Ele assentiu. Depois alcançou a peneira e voltou ao corredor. A malha estava morna. Ilva ficou na cozinha, ouvindo o barulho pequeno das formigas sob a chapa, enquanto o caroço menor girava uma vez sobre a mesa e parava junto do parafuso.
Energia e água
| Geração | 83.008 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~166 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.899 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |