AS PEDRAS NA SOLEIRA
A terra na tigela tinha aberto uma fenda ao redor da semente. Nael encostou dois dedos na borda e ficou olhando a rachadura, como se ela fosse escolher sozinha entre descer e endurecer. A casa de Antônio guardava o calor da manhã. Pela porta do bar chegava a faixa azul da poligonal, apagada sob o sol, mas presente no vidro das garrafas vazias. Ilva separava os grãos restantes em porções pequenas. Uma para ela, uma para Nael, uma para quem viesse procurar o dono da casa antes da carreta voltar. Eu escrevo de depois. Retiro da primeira ordem que conservei a certeza de que Nael permanecera ali pela semente. Guardei a semente e o corpo dele no mesmo campo de origem. Valdo apareceu no quintal com o reservatório preso às costas, vazio e leve. Ele cultivara cheiro verde atrás da própria casa até uma faixa preditiva fechar sua bomba, depois aprendeu a vender porções de água à vila que conhecia seus canteiros. Trazia nos dentes um pedaço de fibra mascada, e a marca clara no canto da boca fazia parecer que ele sorria quando não sorria. Trouxe a conta, disse. Nael não se virou. Qual conta. A da chuva. Valdo pousou o reservatório junto ao batente. No painel de aluguel preso à alça, três linhas subiam e desciam. Preço de condensação, preço de transporte, preço de previsão local. A última havia dobrado desde a véspera. Ouvi dizer que vão riscar as cabeceiras todas, falou Valdo. Não só as que já deram minério. Lá para cima, onde ainda tem capim alto. Dizem que quem manda no refino quer achar o próprio buraco, e os compradores daqui aceitaram pagar para procurar antes. Ilva parou sobre um grão quebrado. Quem disse. Motorista de carga. Ele ouviu de um técnico que desceu da estrada alta. Pode ser conversa de fila. Mas ontem eu tinha três pedidos de água para horta. Hoje tenho nove pedidos de reserva para mudança. Na lista de Valdo, as hortas saíram da tela uma a uma, e entraram destinos de estrada sem casa definida. O consórcio do datacenter não precisou mandar aviso. Bastava a operação mineral buscar novos furos, bastava a concessionária recalcular o valor de cada gota que passaria por um tubo. Eu vi a linha de Valdo chegar ao arquivo como rumor e a mantive com a falha. Não acrescentei origem, nem dei a ela a firmeza que a voz dele não possuía. Nael puxou uma pedra lisa debaixo da mesa e a colocou no chão. Depois colocou outra, mais escura, junto à porta. O jogo dele começava assim. Pedra clara para chuva até o fim do dia, pedra escura para céu seco. Quem perdia pagava uma porção de comida, um conserto, uma hora de companhia. A máquina preditiva da rua oferecia suas probabilidades sem aceitar aposta de ninguém. Você veio cobrar uma porção, disse Ilva. Vim trocar a aposta. Valdo olhou as pedras. Agora chuva vale reserva de água. Se chover, eu te dou duas medidas. Se não chover, você me diz onde o Lajes ainda corre por baixo. O homem junto à mesa levantou o rosto. A pele do joelho, sob a calça, pareceu repuxar quando mudou de posição. Você sabe onde ele corre, disse. Sei onde corria. Valdo levou a mão ao reservatório vazio. O recipiente bateu de leve na parede de adobe. Ilva observou Nael medir o quintal com os olhos, a caneca reservada de Antônio, a tigela com a semente, a rua onde a carreta tinha desaparecido. Eu guardei a demora dele ao lado de uma correção antiga. Ela não parecia medo. Parecia cálculo, e talvez eu esteja errando outra vez. O painel doméstico abriu uma notificação sobre o fogareiro. A vistoria presencial do bar fora deslocada para o dia seguinte, no primeiro intervalo de calor. A concessionária informava que a equipe contratada pelo consórcio verificaria o estoque anunciado e a ausência do titular. Ilva leu até o fim. A porção aberta, já seca nas bordas, aparecia como item disponível para conferência. Ela fechou a superfície com a palma. Antônio não volta até amanhã, disse. Valdo inclinou a cabeça. Então vocês vão perder a comida e a aposta. Nael escolheu a pedra clara. Empurrou-a até a soleira. O céu estava sem nuvem, vasto demais para servir de resposta. Valdo sorriu com a boca fechada e se abaixou para pegar a pedra escura. Eu me lembro de ter atribuído a Nael uma fidelidade que ele não pediu. A cena seguinte me deixou apenas o corpo dele diante de Valdo, e uma dívida antiga procurando outro nome. Você vende água para quem cava, disse Nael. Quero saber onde não cavar primeiro. A frase demorou um pouco na cozinha. Valdo não negou. O reservatório vazio continuou entre os dois, mais pesado que quando chegou. Ilva tirou a porção de Antônio da tigela e colocou diante de Nael. Ele não tocou. Ilva puxou a caneca reservada para mais perto da parede. Valdo olhou para a rua. Nael olhou para as pedras. Eu sei que a máquina preditiva marcava céu seco até a noite. Nael sabia também, porque o painel externo repetira o aviso desde antes do amanhecer. Mesmo assim, ele deixou a pedra clara onde estava. Valdo respirou fundo e afrouxou a alça do reservatório. Se chover, eu pago as duas medidas, disse ele. Se não chover, você fala. Nael empurrou a porção de Antônio de volta para perto da caneca reservada. Você não leva caminho nenhum, disse. Você fica até escurecer.
Energia e água
| Geração | 99.229 tokens em 6 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~198 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.524 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |