A TIGELA DO FILHO
A bola bateu duas vezes na perna da mesa e parou. Nael já atravessara o quintal, levando quatro sementes no bolso, quando Antônio recolheu as duas rachadas e as alinhou sobre o balcão. A vistoria seguia sem hora. No visor fechado, uma faixa âmbar pulsava a cada quinze minutos, presença presencial pendente, como se esperar fosse uma atividade fornecida pelo bar. Ilva permaneceu na cozinha. A casa de Antônio começava atrás de uma cortina térmica presa ao vão, depois do depósito, onde o adobe conservava o calor recebido durante o dia. Havia uma cama estreita, um lavatório seco e uma prateleira com três tigelas. Sobre a terceira, virada para baixo, a presença do filho acendia e apagava na superfície doméstica. Antônio colocou uma das sementes dentro da tigela. Isso não é milho, disse ela. Se perguntarem, é estoque de quintal. Seu quintal termina na parede. Terminava depois do refrigerador. Ele abriu o compartimento de alimento conservado. Restavam seis porções seladas desde a entrega das placas. Escolheu a menor, rompeu a película e despejou os grãos secos ao redor da semente. A conservação daquele conteúdo venceria antes do amanhecer. O visor reconheceu alimento exposto, mas ele cobriu a projeção com a bola de couro. Agora tem milho, disse. E amanhã tem menos uma refeição. Hoje também. Sentaram-se no chão, um de cada lado da cortina. O bar ficava visível pela abertura, bancada vazia, fogareiro sem uso, refrigerador sob o alpendre. Do lado da casa, a tigela do filho esperava entre os dois. Antônio separou os grãos partidos dos inteiros. Fazia montes de cinco, desfazia no quarto, começava outra vez. Ilva reconheceu aquela demora. Na sala refrigerada onde recebera treinamento, mandavam os candidatos repetir uma medição quando alguém precisava decidir por eles. A dúvida durava até o corpo aceitar como própria a escolha da empresa. Ali o calor tirava qualquer elegância do adiamento. A camisa de Antônio escureceu nas costas, depois no peito, depois sob os braços. A presença luminosa acendeu novamente. Você recebeu resposta, disse ela. Recebi presença. Não abriu. Ele empurrou a tigela na direção dela. O ponto luminoso deslizou sobre os grãos e alcançou a semente rachada. Havia nove mensagens compostas no diretório doméstico, todas interrompidas antes do envio. Ilva viu apenas a duração. Onze segundos, vinte e oito, seis, quarenta e três. A última chegava a um minuto e terminava onde começaria a explicação da viagem perdida. Antônio tocou a borda da tigela com os dedos menos feridos. Falei que ia levar comida. Apaguei porque não levei. Falei que tinha conseguido passagem. Apaguei porque perdi. Falei que ele podia voltar quando quisesse. Essa você enviou. Ele afastou três grãos. Não pode. A palavra ficou entre a cama e o depósito. Do lado de fora, uma câmera de rastreamento girou para acompanhar alguém na rua. Dentro da casa, o captador doméstico mantinha uma luz opaca junto ao teto. Antônio retirou a tigela do alcance dele e a colocou sob a cama. A presença do filho desapareceu da superfície. Ilva se abaixou com dificuldade e puxou o terminal contra a barriga. Abriu o canal auditado do homem de outra cidade. A pergunta sobre sua perna continuava presa à revisão, mas havia uma mensagem mais recente, com sete segundos de silêncio antes de ele dizer que esperaria. Ela ainda não respondera. O arquivo mostrava quatro tentativas interrompidas. Antônio olhou as durações, sem pedir o conteúdo. Você também apaga. Ela recolheu o terminal. Menos que você. Mais depressa. A faixa âmbar tornou a pulsar no bar. A vistoria não chegava. O milho aberto perdia conservação enquanto a oferta falsa adquiria cheiro, um odor seco de grão aquecido que qualquer pessoa na porta reconheceria. Antônio pegou a segunda semente, pressionou a rachadura com a unha e partiu a casca. O interior estava escuro numa metade. Na outra, uma faixa amarela resistia. Ele dividiu a parte limpa. Entregou uma lasca a Ilva e levou a outra à boca. Mastigaram devagar, pela aspereza e pelo preço. A semente serviria menos à inspeção depois disso. Servia aos dois. Ela puxou a tigela debaixo da cama. O ponto do filho reapareceu entre os grãos. Manda a mensagem da passagem perdida, disse. Não explica nada. Então manda sem explicar. Antônio abriu o trecho de quarenta e três segundos. A própria voz saiu baixa, dizendo que chegara ao abrigo, que tentara seguir, que voltara com a comida intacta. Antes da última frase, ele suspendeu a reprodução. Ofereceu o acesso a Ilva. Se eu enviar, você não apaga. Se você enviar, fica parecendo que pedi ajuda. Pediu. Ele deixou a mão aberta. Ela aproximou o terminal, e os dois aparelhos reconheceram a transferência entre presenças. A mensagem passou para a guarda temporária dela, sem envio. Antônio perdeu o poder de apagá-la sozinho. Ilva recebeu a obrigação de entregá-la quando ele dissesse, ou quando a espera custasse outra viagem. No bar, a faixa âmbar pulsou mais uma vez. Nenhum dos dois se levantou. Antônio cobriu a tigela com a bola para esconder a luz do captador e falou perto do chão. Se ele responder, não escuta antes de mim.
Energia e água
| Geração | 57.148 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~114 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.447 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |