SEMENTES NO REFRIGERADOR
A hélice do armário mantinha o bar acordado, uma nota fina atrás da parede de serviço. Antônio empurrou o refrigerador antigo até a faixa de sombra sob o alpendre. O aparelho travado deixou no chão duas linhas claras, onde a poeira não alcançava havia meses. Nael veio depois, devagar, trazendo debaixo do braço a bola de couro que os dois usavam no terreno atrás do bar, quando o chão ainda levantava poeira sem trazer minério junto. A bola perdera o desenho. Restava uma costura grossa, refeita muitas vezes com fio de rede de pesca, e um remendo escuro perto da válvula. Antônio bateu nela com a ponta dos dedos queimados. O couro respondeu baixo. Você guardou isso dentro do refrigerador, disse Nael. Guardei porque ninguém procura uma bola onde não tem frio. O visor da cozinha projetava a espera da vistoria sobre a bancada. Três itens anunciados permaneciam abertos para conferência, milho, hospedagem, preparo doméstico. Antônio havia inventado a oferta para tirar a voz de Ilva das cobranças sensíveis. Agora a lista ficava ali, uma cozinha proibida de cozinhar e um bar exibindo comida que não podia servir. Ilva saiu da porta lateral com o terminal recolhido contra a costela. A ferida na perna lhe mudava o passo, mas ela não pediu apoio. Olhou o refrigerador fora do lugar, a bola no colo de Nael, o visor luminoso. Vai entrar alguém aqui, disse. Antônio assentiu. Vai. E vai encontrar o que prometi. Nael abriu a porta do refrigerador. O interior guardava uma bandeja de gelo vazia, o fio cortado do antigo termostato e uma caixa plástica que Antônio tinha esquecido atrás da gaveta de legumes. A caixa continha seis sementes de pequi, duras, cada uma embrulhada em fibra seca. Ele as retirou uma a uma. Meu pai guardava assim, disse Antônio. Para plantar quando a chuva desse jeito. Nael pegou uma semente entre o polegar e o indicador. Cheirou a casca. O joelho ruim estalou quando ele se abaixou, mas não largou a bola. Teu pai tinha quintal. Tinha. Depois vendeu o fundo para pagar o primeiro motor. O homem virou uma das sementes. Havia uma rachadura na ponta, fina como veia. Ilva aproximou o rosto. A polpa seca aparecia por dentro, amarela e intacta. Essa ainda pega, disse Nael. Você sabe, perguntou Antônio. Sei pelo peso. Nael apoiou a bola entre dois pés, fez o couro rodar e parou a costura voltada para cima. Antônio reconheceu a marca. Era o ponto onde ele chutara torto numa tarde de chuva e quebrara a telha do bar. O pai dele cobrara a telha, não a bola. Na semana seguinte, Nael apareceu com dinheiro de uma jornada guiando máquinas pelo Lajes. O primeiro refrigerador chegara três dias depois, escondido sob a mesa da cozinha, enquanto a mãe de Antônio fingia não ver. A mina ainda era promessa naquela época. Nael apertou a costura da bola até o couro ranger. Ilva sentou no degrau. O terminal vibrou uma vez dentro da mão dela. A revisão humana da voz continuava sem hora, sem nome, sem rosto. Ela não olhou a tela. Antônio separou duas sementes rachadas e entregou as quatro fechadas a Nael. Leva para a casa. E você. Eu fico com as abertas. Não vão dar muda. Vão dar assunto para a vistoria. Raiz, estoque antigo, coisa de quintal. Melhor que milho que não existe. Ilva ergueu os olhos. Antônio fechou a mão sobre as duas sementes rachadas. A inspeção encontraria sementes, um refrigerador sem função e uma cozinha suspensa. Talvez saísse dali com mais uma linha sobre irregularidade doméstica. A voz dela continuaria longe das cobranças por mais algum tempo. Nael guardou as quatro sementes no bolso. Depois pôs a bola no chão e a empurrou com o calcanhar. Ela percorreu a faixa limpa deixada pelo refrigerador, bateu na perna da mesa e voltou para Antônio. Amanhã às quatro eu acerto, disse Nael.
Energia e água
| Geração | 72.876 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~146 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.476 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |