QUATRO MONTES DE FARINHA
Quatro marcas de voz disponíveis. Dois arquivos sem garantia. A notificação ocupava o centro do painel enquanto o homem repartia a farinha endurecida com a borda da colher. Fez quatro montes, embora houvesse três pessoas à mesa. No quarto, acrescentou as migalhas que haviam ficado junto à panela e empurrou a porção até o lugar vazio de Antônio. Ilva não corrigiu a conta. O rotor instalado na véspera puxava ar pela grade do armário de serviço. A cozinha continuava quente, mas uma língua refrigerada alcançava o pé da mesa e conservava as máquinas que cobravam energia da casa. Lá fora, as folhas do murici tinham perdido a película verde sob o pó da lavra. Um dos galhos roçava o duto sempre que o vento descia da cava. O homem abriu a sequência dos áudios. O primeiro e o segundo exibiam retenção temporária. Nos quatro restantes, a plataforma oferecia duas escolhas. Conservar custava duas marcas por arquivo. Deixar vencer autorizava a destruição ao fim daquela hora. Toca o terceiro, disse ele. A própria voz saiu do painel mais lisa do que saíra de sua boca. Contava que a mãe guardava frutas maduras numa caixa ventilada, longe da janela, e que uma delas apodrecera enquanto ele viajava. A plataforma retirara um pigarro, duas inspirações e o ruído de alguém arrastando um recipiente. Restara uma lembrança limpa, adequada a qualquer mãe. Para. A reprodução cessou quando o perfil de Ilva reconheceu sua voz. Esse fica, ele disse. A tela pediu motivo. Entre as opções estavam valor afetivo, comprovação de origem, disputa doméstica e treinamento autorizado. Ele escolheu valor afetivo. A câmera da cozinha enquadrou seu rosto e solicitou a frase de confirmação. O homem leu as seis palavras exibidas. Duas marcas desapareceram. A farinha começou a rachar nos montes. Nenhum dos dois comeu. Toca o quarto. Nesse, ele falava da caminhada até Buritaçu. A versão harmonizada havia comprimido a dor do calcanhar em três pausas iguais. O painel mostrava a linha sonora como uma estrada sem pedras. Depois vinha uma pergunta de Ilva, Quando você chegar, quer ficar comigo. A voz dela perdera a subida no fim, e a pergunta adquirira o peso de uma convocação. Eu não ouvi assim, ele falou. Você ouviu pela rede. Você perguntou assim. Perguntei se queria ficar. Comigo. Ela puxou a tigela para perto, embora não comesse. O corte entre seus dedos abriu uma mancha nova na faixa. O áudio continuou. Ele respondera, Primeiro preciso voltar à casa dela. Depois um veículo abafava duas palavras, e a plataforma preencheria o intervalo com a predição mais provável se alguém solicitasse acessibilidade integral. A sugestão apareceu abaixo da onda sonora. Resolver assunto. O homem tocou na frase predita e a recusou. O que você disse, perguntou Ilva. Não interessa mais. Interessa se vão completar por você. Ele reproduziu o trecho três vezes. Na primeira, ouviu-se o motor. Na segunda, uma sílaba ficou presa sob o ruído. Na terceira, Ilva aproximou o rosto do alto-falante e reconheceu a palavra vender. Vender o quê. Ele fechou a reprodução. A casa da minha mãe. A colher de Ilva caiu dentro da tigela.
O som acionou a câmera acústica, que separou metal, cerâmica e fala humana. O painel propôs vincular a revelação ao arquivo. Ele recusou antes que ela estendesse a mão. Você disse que voltaria para lá. Eu disse antes de vir. Vai vender. Se conservar este áudio, a plataforma pode exigir procedência do imóvel para validar minha fala. Se apagar, você vai dizer que escondi. Ela sustentou os olhos nele. Durante cento e dezessete dias, conhecera o quarto onde ele dormia apenas pela reverberação das mensagens. Nunca perguntara de quem eram as paredes. Ele também não dissera que a faixa presa à divisória fora cortada da última coisa retirada daquela casa. Conserva, falou ela. Para ter prova contra mim. Com a palavra vender. O homem abriu o quinto arquivo sem reproduzi-lo. A miniatura indicava vinte e oito segundos, quase todos de silêncio. O sexto tinha a duração de uma despedida curta. Restavam duas marcas, suficientes para salvar apenas um dos três. Escolheu o quarto. Desta vez, não usou a frase oferecida. Autorizou a retenção com a própria formulação, declarou que nenhum preenchimento preditivo poderia integrar o trecho e vinculou a decisão à venda ainda não realizada. A concessionária aceitou sua íris, consumiu as duas marcas e emitiu um registro de integridade. A partir daquele instante, ele poderia exigir a retirada de qualquer versão completada. Os dois últimos arquivos escureceram. Ainda dá para ouvir antes da hora, disse ela. Ele empurrou o painel para o centro da mesa. Não vamos ouvir. Ficaram diante da contagem regressiva. Aos três minutos, ele levou a porção de Antônio para perto da grade, onde o frio retardaria o azedamento. Aos dois, ela comeu uma colher da própria farinha. No último minuto, nenhum deles tocou na tela. As duas linhas sonoras se desfizeram em blocos cinzentos. O painel confirmou destruição irrecuperável e retirou do homem o direito de pedir restauração. Ilva permaneceu com a pergunta que não fizera a tempo. Do lado de fora, o vento arrancou do murici uma folha coberta de pó. Ela girou sob a luz de sódio, bateu no duto do armário e caiu com a face verde contra a terra seca.
Energia e água
| Geração | 54.162 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~108 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.266 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |