2047: Arquivos do depois de antes
← Todos os capítulos

CAPÍTULO 130 · PRÉVIA

O ROTOR ESCONDIDO

Prévia, ainda não impresso

Lote liberado. Três rotores de ímã, entrega condicionada à instalação no mesmo ciclo. Renan trouxe a notificação aberta sobre o pulso e uma caixa cinzenta presa ao peito por uma cinta. Dentro, os rotores, discos de metal e mineral que mantinham as hélices de resfriamento girando no datacenter prometido para Buritaçu, tinham chegado antes das peças de reparo da vila. O consórcio liberara o lote depois de semanas de retenção em rotas que ninguém ali podia ver. Renan passara a madrugada na oficina para receber um deles. A casa já estava quente quando ele entrou. A esteira ainda cortava a cozinha. Atrás da divisória, o homem mantinha a bolsa sobre o chão e a manta dobrada contra a parede. Ilva retirou o espelho frio do volume baixo e pousou o coletor na mesa. Você pediu para ouvir tudo, disse ela. Ele olhou o aparelho sem se sentar. A pele do rosto estava marcada pela noite mal dormida. Começa pela primeira. Ela abriu o arquivo mais antigo. A voz dele saiu baixa, com o ruído de uma rua distante atrás das palavras. Falava sobre uma fila de trabalho, uma mulher que perdera lugar num alojamento, uma fruta que lembrava a mãe. A versão enviada à rede tinha apagado as pausas, nivelado a respiração, aparado as hesitações. No coletor, cada intervalo ficava onde tinha caído. Renan pousou a caixa junto ao armário de serviço. O ar das máquinas vinha pela grade e deixava uma faixa de frio no piso, curta como uma sombra. Ele retirou o rotor antigo da embalagem de proteção. A borda tinha pequenos dentes, feitos para encaixar no eixo da hélice. Chegou inteiro, falou Nael, da soleira. Inteiro demais, respondeu Renan. Quando chega assim, alguém já pagou antes. O homem ouviu sua própria voz dizer que não sabia se voltaria para Buritaçu. Ficou de pé, uma mão apoiada na mesa. Ilva não tocou no coletor. A gravação continuou até a porta ranger. O Cantochoro da encosta atravessou o alpendre rente ao chão. Trazia no bico um besouro ainda vivo, verde e pesado. Bateu contra a grade da ventilação, errou a abertura e caiu sobre a caixa de Renan. O besouro escapou sob o rotor novo. A ave bicou o metal uma vez, duas, três. O som chamou outra ave, escondida no telhado, que respondeu com uma nota curta. Renan estendeu a mão. Não pega, falou Nael. O Cantochoro abriu as asas e enfiou a cabeça entre os dentes do rotor. Procurava o besouro. A peça inclinou dentro da caixa. O homem avançou instintivamente, esquecendo o pé ruim, e segurou a borda antes que o disco caísse no chão. O pássaro se assustou com a aproximação e bateu contra o duto. Uma pena ficou presa numa fenda do cabeamento aparente. Renan fechou a caixa com cuidado, deixando o rotor escondido. Sem a peça, a hélice não podia ser trocada. Com a peça exposta, o pássaro voltaria a bicar nela. Nael saiu até o quintal e voltou com um galho seco de murici, fino, cheio de pontas quebradas. Prendeu-o na lateral do alpendre, longe da ventilação. Ilva tirou do recipiente de farinha dois grãos endurecidos e os colocou numa rachadura do galho.

O Cantochoro observou da soleira, a cabeça inclinada. Isso não come farinha, disse Renan. Então deixa ele descobrir, respondeu ela. O besouro reapareceu junto à caixa. O pássaro desceu num golpe só, apanhou-o e voltou para o galho. Ficou ali, mastigando devagar, as patas firmes na madeira seca. A outra ave respondeu do telhado e não veio. Renan puxou a caixa para trás do armário. A instalação teria de esperar até o fim da tarde, quando o Cantochoro deixasse o alpendre. Se devolvesse o rotor sem uso, a oficina descontaria o turno inteiro. Se o instalasse com o pássaro rondando a ventilação, a hélice poderia triturar pena, inseto, asa. O homem sentou enfim. A gravação tinha terminado. Tem mais, disse Ilva. Tem. Ele respirou pelo nariz, como quem prova uma água suspeita. Pode seguir. Depois eu digo o que fica. Nael levou uma cadeira para perto da porta e se sentou de frente para o galho. Renan permaneceu junto ao armário, guardando a caixa com o rotor que faria circular o ar de máquinas feitas para responder por gente. Ilva abriu o segundo arquivo. Do lado de fora, o Cantochoro limpou o bico no murici. A poeira da mina cobria as folhas baixas, mas uma ponta verde ainda resistia na madeira, dobrada sob o peso da ave.

Energia e água

Geração216.523 tokens em 11 chamadas ao modelomedido
Água~433 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo61 Wh só na placa de vídeo (4090)medido na GPU
Tradução~5.886 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗