2047: Arquivos do depois de antes
← Todos os capítulos

CAPÍTULO 129 · PRÉVIA

A POEIRA SOBRE TIGELAS

Prévia, ainda não impresso

A faixa presa à argola rangeu três vezes quando ele se virou atrás da divisória. Ilva reconheceu o intervalo entre os movimentos, longo demais para sono. Na cozinha, a esteira ocupava a passagem, as tigelas alinhadas tinham secado de boca para baixo, e a luz das câmeras de rastreamento varria o alpendre a cada carga que subia a rua. Ele saiu com a manta dobrada no braço. Consegui um lugar, falou. Onde. Na casa do alto. Uma noite custa três porções. Ontem custava uma. Cada cama de Buritaçu adquirira valor de peça importada. A casa do alto aceitava alimento, saldo térmico ou seis horas de descarga. Você não tem três porções, disse ela. Tenho a manta. A frase fez Ilva fechar a mão enfaixada. Atrás da rede, a bolsa vazia e a camisa encardida mal compunham uma vida, mas preenchiam o corredor o bastante para afastar a coleta de compatibilidade. Sem aquele corpo, a casa de Antônio voltaria a parecer disponível. Ele pousou a manta sobre a mesa. A poeira acumulada no tecido desenhou um retângulo escuro. Vou antes de aumentarem de novo. Ilva pegou o terminal. Procurou a conversa enviada a Antônio, os quarenta e três segundos em que os dois admitiam a ocupação, a comida usada, a espera. A reprodução oficial podia ser harmonizada pelos donos da plataforma. A cópia que ela preparou não. Ele percebeu quando o indicador do espelho frio clareou dentro do volume baixo. Você copiou minha voz. Copiei nossa mensagem. Eu pedi para mandar. Mandamos. Não pedi para guardar. Ela manteve o coletor apoiado contra a coxa. A última frase dele permanecia aberta na linha de áudio. Antônio, quando voltar, eu explico o que comi e saio se você mandar. A voz tinha uma aspereza que a transmissão corrigira, reduzindo a respiração entre comi e saio. No arquivo fora da rede, a pausa durava quase dois segundos. Isso prova que você não tomou a casa, disse Ilva. Prova para quem. Para Antônio. Ele afastou a manta da mesa. O tecido bateu na borda e levantou poeira sobre as tigelas.

Durante cento e dezessete dias, ele entregara palavras à rede porque acreditava falar com ela. Agora descobria uma segunda escuta, menor, doméstica, alimentada pela mesma mulher que aprendera a temer as correções da empresa. Apaga. Se eu apagar, fica só a versão deles. Ela não apagou. Guardou o coletor no volume e fechou a tampa. Fez isso devagar, dando a ele tempo para impedir. Ele não tocou nela. A manta vale uma noite, falou. Ilva puxou a esteira para liberar metade da passagem. Ele recolheu a manta, mas não foi até a porta. Levou-a para trás da divisória e retirou de lá a bolsa. Vou ficar até Antônio voltar. Depois você toca tudo o que guardou de mim. Tudo, na minha frente. Ela assentiu. E se eu mandar apagar, você apaga. Dessa vez, Ilva demorou. Ele colocou a bolsa sobre a esteira, no lado da cozinha, fora do espaço que fingia ser quarto. A casa conservou a prioridade ameaçada, porém perdeu a aparência de acordo. Apago, disse ela. Atrás da tampa fechada, a respiração de quase dois segundos continuou intacta.

Energia e água

Geração154.931 tokens em 11 chamadas ao modelomedido
Água~310 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo61 Wh só na placa de vídeo (4090)medido na GPU
Tradução~4.180 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗