2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 128 · PRÉVIA

A ESTEIRA DE BURITI

Prévia, ainda não impresso

A faixa cortada da casa da mãe do homem sustentava a rede no alto do corredor, escura de poeira onde passava pela argola de cobre. Ao fim da tarde, a trama se curvou mais de um lado. A manta, a bolsa e as duas canecas guardadas atrás dela faziam peso suficiente para mostrar a quem entrasse que aquele vão já tinha dono. Ilva colocou a bacia sob a torneira. A água chegou em golpes curtos, três respirações de cano e uma pausa, três de novo. Nael ouviu da soleira, sem se levantar. Antes, ela vinha sem parar até a borda, disse. Antes tinha gente plantando atrás das casas, respondeu Ilva. Ele olhou para o quintal. A terra da muda morta continuava aberta sob a sombra do tanque. Não disse mais nada. O homem trouxe a camisa para perto da bacia. A parte que servira de faixa estava menor agora, presa no corredor. Restava na barra uma mancha antiga, mais clara que o resto do tecido. Ele a esfregou entre os dedos, procurando a sujeira que já não saía. Essa água é para hoje, falou Ilva. Eu sei. A torneira tossiu uma última vez. No fundo da bacia havia menos que a altura de dois dedos. Ela retirou uma caneca, molhou o cabelo na nuca e passou as mãos pela cabeça devagar. O homem ficou esperando com a camisa suspensa. Nael puxou um banco para perto da porta e começou a soltar os cadarços da sandália. Luzia apareceu no alpendre com um pedaço de linha preso ao cabelo. Trazia uma tira prateada, leve como pele de cebola. Achei no telhado da casa da professora, disse. O drone passou lá. Nael tomou a tira da mão dela. Virou-a contra a luz. Era um fragmento de película refletiva, usado para marcar telhados legíveis pela câmera alta. Ele devolveu. Você não subiu. Subi no muro. E viu o quê. A rua inteira, respondeu ela. A casa de Antônio fica pequena. O homem baixou a camisa. Por trás da divisória, a bolsa vazia ocupava o lugar que os instaladores poderiam chamar de cama disponível. A prioridade da casa dependia daquele espaço parecer sem corpo, sem manta, sem tigela entre as outras. Ele conhecia a conta. Tinha chegado sabendo pouco, aprendera depressa o preço de cada canto. Se tirar a rede antes da coleta, falou, talvez ainda escolham esta casa. Ilva deixou a caneca dentro da bacia. A água em sua nuca desceu pelo pescoço e sumiu sob a gola. E você dorme onde. No banco. Ou no chão da cozinha. Nael ergueu a cabeça. O joelho estalou quando mudou de posição. No banco dormia menino, disse. Homem acordado demais cai. Luzia entrou sem pedir licença e se sentou junto à parede. Ficou olhando a rede, como se fosse uma porta que alguém tinha esquecido de fazer. Antônio pode mandar tirar quando voltar, disse o homem. Pode, respondeu Ilva. A resposta não abriu passagem para outra. Lá fora, um veículo pesado subiu a rua e os cabos presos à fachada vibraram contra o reboco antigo. O armário de serviço soltou um sopro refrigerado pela grade de Renan. A cozinha guardou o calor inteiro. Nael se abaixou até o compartimento baixo e retirou uma esteira enrolada, feita de talas de buriti escurecidas pelo uso. Antônio a estendia diante do balcão nas noites em que o bar ainda recebia jogo de futebol pela transmissão coletiva. Nael puxou uma ponta. A esteira ocupou metade da cozinha.

Essa fica aqui, falou. O homem olhou para ela. Para quê. Para ninguém inventar que o corredor é quarto vazio. Ilva aproximou a bacia da parede. Dividiu a água em três recipientes pequenos. Um para Nael lavar os pés antes de deitar. Um para Luzia, que mergulhou as mãos e limpou a poeira do muro. O último ficou diante do homem. Ele não tocou na camisa. Tirou o sapato com cuidado, soltou o pé da tira seca e lavou apenas o rosto. A água escureceu no recipiente. Depois despejou o resto numa rachadura da soleira, longe da raiz morta do pequi. Luzia segurou a película prateada acima da cabeça. Quando o drone voltar, eu vou estar no telhado, disse. Nael enrolou a esteira pela metade e a empurrou até a entrada do corredor. O homem ajudou com a perna boa. A trama de buriti ficou atravessada entre a cozinha e a divisória, estreita demais para cama de instalador, larga o bastante para uma criança subir nela quando ninguém estivesse olhando.

Energia e água

Geração216.324 tokens em 11 chamadas ao modelomedido
Água~433 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo61 Wh só na placa de vídeo (4090)medido na GPU
Tradução~5.743 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗