A GRADE ENFERRUJADA
A tigela vazia continuava no chão, a um palmo das outras, quando Renan voltou da rua com pó cinza nas dobras da camisa. Trouxe no pulso o aviso da oficina. A carga de ímãs seguia adiantada porque fábricas de longe tinham ampliado as encomendas, e os filtros da britagem precisavam ser limpos antes do sol baixar. Pagavam uma refeição inteira e metade de uma noturna para quem aceitasse entrar no turno. O homem olhou a tigela. Renan encostou dois dedos na peneira rasgada. As formigas já tinham encontrado o rasgo maior. Vinham sem larvas, em fila curta, atravessavam a canaleta e desapareciam atrás do armário de serviço, onde a ventilação mantinha o ar das máquinas num frio que não chegava à cozinha. Se eu for, elas entram, disse ele. Nael levantou da soleira. Havia passado a manhã separando grãos escuros da farinha, tarefa que fazia devagar demais para render discussão. Tirou do depósito uma grade estreita, coberta de ferrugem nas pontas. Era da traseira do primeiro refrigerador do bar, comprado quando ele ainda guiava sondagem e Antônio escondia o aparelho sob a mesa, com medo de alguém levar antes de a cozinha estar pronta. Luzia bateu a unha numa das barras. Isso segura formiga, perguntou. Segura coisa maior que formiga, falou Nael. Ela trouxe uma tampinha de fruta seca que encontrara perto do tanque e passou a usá-la como prato para uma formiga solitária. Acompanhou o bicho até ele abandonar a tampinha e subir pela barra da grade. Riu como se tivesse vencido uma aposta que ninguém fizera. Renan levou a peça até a ventilação. A grade tinha o comprimento exato da abertura, faltava apenas uma largura de dedo na lateral. Ele retirou a peneira, e o ar quente bateu em seu rosto com cheiro de poeira mineral e graxa velha. Ilva trouxe dois fragmentos de taipa que haviam sobrado da elevação da placa. Renan assentou um de cada lado, encaixou a grade sobre eles e pressionou até a ferrugem soltar uma crosta fina no piso. As formigas alcançaram a barreira. Uma subiu, caiu, tentou outra vez. As demais voltaram pela canaleta. O homem pegou a peneira livre e a levou para a cozinha. Sacudiu o metal sobre a pia. Caíram três grãos de farinha, uma asa seca e um pó que não dava para usar. Ilva tirou a tigela vazia do chão, lavou-a com o resto de água da caneca e a deixou escorrendo de boca para baixo. Na rua, a carga mineral passou puxando uma sombra móvel sobre o alpendre. As câmeras de rastreamento da fachada acompanharam o veículo até a esquina. Renan recebeu novo aviso no pulso. Restavam vinte e três minutos para a oficina preencher a vaga. Vai, disse Nael. Renan olhou a grade antiga. Depois olhou a casa. A operação prometia trabalho nos novos pátios do datacenter para quem tivesse endereço apto a alojar instaladores. Renan tinha ouvido os nomes das ruas sendo repartidos no canal da oficina. A casa de Antônio aparecia como espaço em disputa. Um ocupante provisório podia afastar a seleção. Podia também atrair uma vistoria que ninguém queria. Ele pegou a chave do balcão e a colocou diante de Ilva. Se a grade ceder, chama alguém, falou. Luzia já tinha esquecido a formiga. Encontrou uma pena azulada no quintal, pequena demais para dizer de que ave viera, e prendeu-a atrás da orelha. Nael fingiu que não via. Ela caminhou até a porta, mostrou a pena ao homem e perguntou se ele sabia assobiar sem usar a boca. Ele tentou. Saiu um sopro baixo, sem forma. Luzia riu de novo, correu até a sombra do tanque e não voltou para terminar a brincadeira. Renan saiu para o turno levando o cheiro da oficina antes de chegar nela. A grade permaneceu diante da ventilação. Ilva aproximou a farinha da linha de emergência do fogareiro e aqueceu uma parte numa chapa já fria, mexendo até os grumos escurecerem. Fez quatro montes pequenos. O maior ficou sob a tigela virada de Antônio.
Nael recebeu o segundo. Ilva tomou o terceiro. Restava o quarto, quase só a borda de uma colher. O homem levou a tigela lavada até a mesa e a colocou ao lado da porção dele. Não junto das tigelas dos moradores, tampouco no chão. Depois puxou a bolsa vazia para perto da porta do corredor e dobrou a manta sobre ela.
Energia e água
| Geração | 555.287 tokens em 22 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~1.111 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.724 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |