A PORTA DO SALÃO
A soleira marcou treze minutos sem mudança de peso. O homem permanecia junto à cama, sentado de lado para não tocar o calcanhar no chão, e a luz azul sob a porta diminuía um grau a cada bloco encerrado. Ilva viu a contagem subir no canto do painel doméstico. Vínculo em prova. Moradia sem titular presente. Nael saiu do quarto levando a sandália na mão. Parou diante da camisa limpa sobre a beirada da cama, depois olhou a tigela lascada perto do fogareiro. Ele vai querer saber, disse. O homem passou a língua no lábio rachado. Vai. A casa tinha uma segunda entrada, estreita, entre a cozinha e o salão do bar. Antônio a mantivera fechada desde a suspensão da comida. Do outro lado ficavam as banquetas empilhadas, o balcão sem copos e o ponto de presença onde ele costumava deixar mensagens para o filho. A empresa de aluguel enviara uma faixa sobre aquela porta. Para reconhecer permanência familiar, solicitava travessia residencial com consentimento do titular ou substituição preditiva. Ilva inclinou-se sobre o painel, até a luz azul cortar-lhe a maçã do rosto. A substituição preditiva usava gravações antigas de Antônio para produzir uma autorização com a voz dele. A inteligência artificial oferecia três versões. Uma acolhia o visitante por uma noite. Outra cobrava dele a refeição consumida. A terceira vinculava o homem à dívida hídrica do dono da casa. O homem leu sem se mexer. Ela fala como ele, disse Nael. Ilva tocou a opção mais curta. A voz de Antônio saiu baixa pelo painel, cansada e exata demais. Pode entrar, desde que conte o que fez. Nael puxou a porta para si. O ar do salão vinha quente, parado entre o refrigerador aberto, trazido do alpendre naquela manhã, e as paredes onde os dutos subiam como cicatrizes de metal. Antônio comprara aquele primeiro refrigerador com dinheiro de caminho vendido por Nael, quando os dois ainda jogavam bola atrás do bar. Três noites o aparelho ficara escondido debaixo da mesa da cozinha, esperando que alguém decidisse se aquilo era futuro ou dívida. O homem empurrou a cadeira com as mãos e tentou ficar de pé. A membrana do calcanhar escureceu num ponto. Ilva segurou seu braço. Você não precisa atravessar agora. Preciso decidir onde estou. A frase ficou entre a porta aberta e a tigela vazia. Nael olhou o painel outra vez. A substituição preditiva mantinha a boca de Antônio em movimento, repetindo a autorização que ele não dera. Não usa isso, falou o homem. Se não usar, a empresa pode negar a casa, disse ela. Se usar, ele volta e encontra uma resposta no lugar dele. A luz azul perdeu mais um grau. Ilva fechou as três versões. Por um instante, o painel ofereceu apenas o rosto de Antônio, capturado em alguma hora anterior, esperando a íris de quem pudesse aceitá-lo como presença bastante. O homem abriu a reserva do alojamento no antebraço. Restavam duas noites retidas, agora reduzidas a uma linha amarela. A empresa de aluguel permitia converter uma delas em garantia de trânsito interno. Ele leu a condição até o fim. Ao cruzar para o bar, deixaria de ser visita em passagem e passaria a ocupante provisório do endereço. Se Antônio recusasse a presença quando retornasse, a reserva não voltaria. Ilva tentou puxar a mão dele para baixo. Guarda isso. Ele afastou o braço devagar. A linha amarela já era a última. Autenticou com a face. A linha amarela sumiu. O painel abriu a porta do salão mais alguns centímetros e pediu que ele passasse sem apoio externo. Nael soltou uma risada curta, sem alegria. Até para mancar eles querem prova. O homem segurou a moldura. Tirou o peso do pé ferido, atravessou primeiro com a perna boa e depois arrastou a outra até o lado do balcão.
O sensor registrou a passagem. Ocupante provisório. Responsabilidade de consumo compartilhada. A água doméstica da casa caiu para o próximo intervalo de rateio. Ilva sentiu a faixa em sua mão apertar sobre o corte. Nael entrou atrás dele e fechou a porta da cozinha. O painel pediu uma declaração sobre a porção de Antônio. O homem se sentou no banco mais perto do balcão. Havia um lugar vazio diante dele, onde Antônio costumava apoiar os dois dedos queimados enquanto ouvia as mensagens que nunca enviava. Comi, disse. Eu estava com fome. A máquina ofereceu complemento, arrependimento, justificativa, promessa de reposição. Ele deixou tudo sem voz. Ilva abriu o registro doméstico e marcou apenas a travessia, a reserva perdida e a declaração. Não levou o painel até a cama. Não pediu que a casa chamasse Antônio. Na soleira entre cozinha e bar, a luz voltou ao azul inteiro. Do lado de fora, as saúvas alcançaram a borda do recipiente que prendia a tela da muda.
Energia e água
| Geração | 87.282 tokens em 6 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~175 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.500 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |