O COPO AINDA VAZIO
Quarenta e seis segundos separavam a ocupação provisória da cobrança compartilhada. A faixa de tempo corria no painel do bar, acima do rosto ausente de Antônio. Para conservar o endereço como moradia familiar, a empresa de aluguel exigia uma prova de vínculo anterior entre Ilva e o homem. A travessia, a fome declarada e a reserva sacrificada só provavam que ele estava ali. A torneira da cozinha deu três golpes secos. O rateio alcançara a casa antes do intervalo informado, reduzido pela presença adicional. Nael colocou sob a bica o copo vazio de Ilva e esperou. Nenhuma gota caiu. No quintal, as saúvas passavam por baixo do recipiente achatado e alcançavam o caule da muda de pequi. A planta perdera a película verde do lado voltado para os dutos. A inteligência artificial ainda não funcionava ali em escala plena. A sede já funcionava. O homem apoiou o pé bom no chão do bar. A membrana do calcanhar tinha uma mancha maior que na travessia. Que prova serve, perguntou. O painel ofereceu três fontes. Histórico de deslocamento conjunto, inexistente. Compra compartilhada, inexistente. Comunicação afetiva anterior à chegada. Ilva fechou as duas primeiras. Restavam onze arquivos de voz, gravados ao longo de meses e já retidos pela empresa que auditava suas mensagens. Cada arquivo trazia uma medida de intimidade calculada por duração, frequência respiratória e repetição de nomes. A empresa de aluguel comprara acesso a esses índices para separar visita de moradia. Ele leu a autorização de uso. Você guardou todas, perguntou. Eu disse que não entregaria sua voz à casa. É a casa que está pedindo. A frase ficou sob o ruído contínuo do refrigerador sem refrigeração. Nael levou o copo para o salão e o colocou entre os dois. Depois saiu para o quintal, onde começou a afastar as saúvas com uma tira de tecido molhado na água reservada a Antônio. Gastava ali o que a torneira negara. Ilva abriu o arquivo mais antigo. Sua própria voz ocupou o bar. Quando você chegar, traga uma manga que aguente o caminho. O homem baixou os olhos. A resposta dele vinha depois, mas o harmonizador a havia removido por baixa relevância contratual. No lugar, uma síntese dizia que o interlocutor aceitara a solicitação. Essa não, falou. Ela abriu outra. O áudio começava com quatro respirações e uma pergunta dele sobre o Lajes. Depois vinha a resposta de Ilva, precisa demais, com vazão, temperatura e hora. O painel classificou o trecho como comunicação profissional. Você me respondeu durante sete minutos, disse ele. A máquina guardou quarenta e dois segundos. E você. Ele respirou fundo pelo nariz. Ele puxou o painel para perto. O histórico mostrava os cortes autorizados pela empresa de auditoria. Havia risos removidos como ruído, silêncios comprimidos, uma noite inteira reduzida a duas perguntas úteis. Faltavam vinte e oito segundos. Ilva abriu a última gravação. Nela, o homem perguntava se poderia dormir ouvindo a respiração dela. A resposta demorava onze segundos. Durante aquele intervalo, a concessionária registrara consumo contínuo do canal e cobrara energia das duas pontas. Depois Ilva dizia que sim. O arquivo terminava com a respiração dela, ampliada até parecer vento dentro de um tubo. Use essa, falou o homem. A empresa de aluguel pediu autorização dos dois corpos. Ele apresentou a face. Ilva manteve a íris fora da faixa de leitura. Se Antônio recusar você, isto permanece. Já perdi a volta. Pode perder também o direito de contestar a cobrança da casa. Ele aproximou o painel dela. A mão enfaixada de Ilva deixou uma marca de umidade na borda. Faltavam nove segundos. Ela autenticou. A prova ganhou duração, origem e preço. A empresa reconheceu um vínculo de cento e dezessete dias, manteve a ocupação provisória até o retorno de Antônio e transferiu ao homem metade da dívida doméstica produzida desde sua chegada. A gravação deixou de pertencer apenas aos dois. O consórcio do datacenter recebeu acesso estatístico ao padrão de consumo associado à nova moradia, conforme a cláusula aceita pela face e pela íris. No quintal, Nael chamou uma vez. A tira já estava seca, e as saúvas haviam alcançado a primeira folha. O homem fechou o painel. Ilva recolheu o copo ainda vazio, passou pelo salão e se ajoelhou junto à muda.
Energia e água
| Geração | 60.688 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~121 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.972 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |