A MEMBRANA NO DEDO
Fica quieto, disse Nael, puxando a cadeira de Valdo para junto da janela. A bolha do indicador abrira outra vez. A borda da película estava preta de farinha, e um filete escuro descia até a palma. Valdo escondera a mão durante a moagem, apertando a base da pedra com os outros dedos. Agora mantinha o braço dobrado contra o peito, como se ainda pudesse chegar ao acesso norte sem que Nael percebesse. Faltavam trinta e dois minutos para o reconhecimento. Ilva deixou o espelho frio enrolado no alpendre e trouxe uma bacia rasa, a membrana médica que restava e o frasco de descontaminante. A faixa em sua perna terminava dois dedos abaixo da marca recomendada. Ela caminhava distribuindo o peso com cuidado, uma economia que o corpo aprendera depois que a concessionária retirou sua função de campo. Nael apoiou a mão de Valdo sobre a mesa. A queimadura ocupava quase toda a lateral do dedo, avermelhada nas bordas e amarela no centro. O motorista tentou fechar a mão. Se você fechar, gruda por dentro, disse Ilva. Ela mediu quarenta mililitros da água reservada para Antônio e separou metade na bacia. A outra metade permaneceu no copo, coberta com um prato pequeno. Umedeceu um pano limpo, pressionou ao redor da ferida três vezes e esperou a farinha amolecer. Na primeira passagem saiu milho. Na segunda, poeira negra. Na terceira, sangue. Valdo olhava o painel da cozinha. Vinte e quatro minutos. Vai comigo, disse Nael. Meu acesso acabou na estrada. Vai até onde deixar. Ilva despejou quatro gotas de descontaminante no pano. Quando encostou, Valdo puxou o braço e derrubou parte da água no piso. Foram seis mililitros, absorvidos pela caliça antes que ela pudesse recolhê-los. O painel doméstico detectou umidade e ofereceu registrar limpeza sanitária. Ninguém respondeu. A câmera acima da porta ajustou o foco para a mão aberta. Nael se colocou entre a lente e a mesa. Ilva contou até vinte, retirou o pano e examinou a pele. A parte rompida precisava ser coberta sem prender a secreção. Da membrana restavam nove centímetros, quantidade suficiente para a ferida de Valdo ou para duas trocas da faixa de sua perna. Ela cortou seis. Três centímetros voltaram ao invólucro. Valdo viu a sobra. Posso usar pano. Você dirige com essa mão, disse ela. Dirigia. A palavra ficou perto do copo coberto. Desde que a empresa recolhera o reservatório, ele recebia chamados sem carga, rotas sem prioridade e cobranças ligadas a um serviço que já não podia prestar. Ainda assim, toda manhã lavava a cabine por dentro com um pano quase seco. Naquela manhã, deixara o banco do passageiro livre e a porta destravada até o calor entrar. Ilva assentou a membrana da base para a ponta, expulsando duas bolsas de ar com o polegar. Cobriu a abertura, deixou livre a dobra do dedo e passou uma tira estreita ao redor da palma. Nael manteve o punho de Valdo imóvel. O reconhecimento estava a onze minutos de distância e exigia nove minutos de caminhada até o acesso norte. Vai, falou Valdo. Nael não soltou a mão. A notificação chegou ao painel quando faltavam sete minutos. A empresa de aluguel informava que o comparecimento presencial poderia ser substituído por reconhecimento assistido. Um modelo de inteligência artificial reconstruiria o percurso com as declarações anteriores de Nael, as rotas vendidas por ele às sondagens e as imagens compradas pela operação mineral. Restaria ao ex-minerador confirmar a sequência com a íris. A curva de cima já aparecia sugerida em azul. Valdo levantou da cadeira. A membrana recém-aplicada clareou sob a pressão do sangue. Ele viu a linha dobrar depois da estaca partida, seguir pelo terreno onde estivera a roda d’água e terminar sobre a casa enterrada. Na tela, três traçados de espessuras diferentes se fecharam numa passagem única. Se você correr, ainda chega, disse Valdo. Nael pressionou novamente a borda da cobertura, que começava a levantar. Ilva contou mais dez segundos e acrescentou uma faixa de um centímetro. Da membrana sobraram dois. O painel encerrou a entrada presencial. A empresa registrou ausência e manteve aberta apenas a reconstrução automática, válida até a primeira luz. A linha azul pulsou sobre a parede caiada, atravessando o rosto dos três. Ilva recolheu o pano sujo e esvaziou na terra de um vaso os catorze mililitros que restavam na bacia. Valdo abriu e fechou o dedo uma vez. A cobertura permaneceu firme. Nael pegou o prato que protegia o copo de Antônio, colocou-o sobre a projeção e caminhou até a porta. Antes de sair, arrancou do alpendre a cunha de buriti que firmava o moinho e a enfiou no bolso.
Energia e água
| Geração | 53.187 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~106 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.427 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |