2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 094 · PRÉVIA

A CUNHA DE BURITI

Prévia, ainda não impresso

Nael chegou ao fundo do bar com a tigela nas duas mãos e encontrou, atrás das caixas de bebida vazias, a pedra circular que Antônio usava antes do primeiro refrigerador. Tinha uma rachadura atravessando o centro e uma mancha verde de milho velho na borda. Ele a puxou pelo aro, arrastando-a até o alpendre. Valdo veio atrás, mancando menos do que na véspera, embora a película junto ao pescoço ainda levantasse uma ponta quando ele baixava a cabeça. A pedra era um moinho de mão. Duas partes de granito, uma sobre a outra, que esmagavam grão quando alguém fazia a peça superior girar. Antônio a deixara ali depois que a unidade de preparo tomou o lugar do fogo e a comida passou a depender de saldo, horário e autorização. Nael pôs os grãos limpos da peneira na abertura central. Ainda dá, disse Valdo. Dá para quem não tem pressa, respondeu Nael. Ele girou a pedra. O primeiro ruído foi áspero, pedra contra pedra, depois veio um ranger miúdo, os grãos quebrando sob o peso. O joelho ruim o obrigava a trocar de posição a cada meia volta. Valdo se abaixou sem perguntar e segurou a base com as duas mãos. A farinha começou a cair numa tigela colocada embaixo da borda. No painel do bar, uma faixa de notícia atravessou a tela reservada às notificações da vila. Uma província da Austrália discutia obrigar datacenters a garantir a própria energia renovável, sem jogar na rede pública a conta do consumo e da água. A operação mineral de Buritaçu já tinha enviado uma síntese aos fornecedores. O consórcio do datacenter aparecia no fim da mensagem, oferecendo parceria para mapear antigas linhas de circulação e áreas de geração local. Valdo parou a mão sobre a pedra. Querem pôr o datacenter em cima do que sobrou, disse. A tela mudou para o chamado de Nael. Reconhecimento de percurso ao cair da tarde. Comparecimento solicitado no acesso norte da poligonal. O texto vinha assinado pela empresa de aluguel, que alugava caminhões, imagens, rotas e, quando convinha, a memória de quem sobrevivera às rotas. A farinha saiu mais grossa onde a pedra estava rachada. Nael passou os dedos por ela, separou três pedrinhas, colocou-as no canto da tigela. Depois puxou do vão entre as duas partes do moinho uma cunha curta de madeira escurecida. Era de buriti, antiga, cortada no tempo em que o moinho bamboleava sobre o piso e Antônio ainda escondia o refrigerador novo debaixo da mesa da cozinha. Valdo reconheceu a peça. Você guardou isso. Ficou presa. Nael encaixou a cunha na rachadura lateral e bateu com a palma até a pedra firmar.

Girou outra vez. A moagem ganhou peso, mas deixou de cuspir grãos inteiros. O que antes caía em farelo seco desceu numa farinha capaz de virar comida. Valdo encostou a ponta do dedo na farinha e a deixou cair de volta, sem grãos inteiros. Ilva apareceu na porta com o espelho frio enrolado sob o braço. Viu o aviso no painel, viu Nael curvado sobre a pedra, e ficou um instante sem entrar. O calor do alpendre subia do chão. Atrás da rua, os dutos do datacenter soltavam uma névoa fina que não chegava às casas, desaparecia antes no céu branco. Eles querem a curva de cima, disse Valdo. Querem a água que passa perto dela, respondeu Nael. A pedra rangeu mais uma vez. Ele tirou a mão, limpou a farinha do pulso e olhou para a tela. O reconhecimento podia ligar seu nome à camada soterrada. Podia também entregar ao consórcio uma passagem que eles chamariam de renovável até o dia em que as bombas exigissem reforço da rede e alguém descobrisse que o sol não move turbina à noite. Ilva colocou a tigela ao lado da pedra. A casa debaixo do quintal tinha roda d água, disse Nael. Valdo ergueu os olhos. Tinha um eixo de madeira no canal. A água do Lajes virava uma pá e moía milho para três famílias. Quando abriram o corredor de sondagem, tiraram a roda e venderam o ferro da armação. A pedra ficou. Você nunca falou disso, disse ela. Porque ninguém perguntou pela comida, respondeu Nael. Ele recolheu a farinha com a mão em concha. Valdo trouxe uma panela rasa, lavada com o resto de água que sobrara do dia anterior, e despejou nela o pó amarelo. Ilva mediu três pequenas porções de água, uma por uma, até a massa juntar. Ninguém acendeu a unidade de preparo. A atividade do bar continuava suspensa. Valdo levou a panela ao fundo do alpendre, onde uma chapa antiga recebia calor de uma linha de serviço exposta ao sol. Nael ficou de pé devagar. A cunha de buriti permanecia visível na rachadura do moinho. Quando me chamarem, vou pelo acesso norte, disse. O painel repetiu o horário do acesso norte. Ele pegou a tigela de farinha que restara, atravessou o bar e levou a pedra pequena de granito para perto da panela, onde Valdo já virava a primeira massa com uma faca sem cabo.

Energia e água

Geração52.573 tokens em 4 chamadas ao modelomedido
Água~105 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo61 Wh só na placa de vídeo (4090)medido na GPU
Tradução~6.625 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗