SEIS MILILITROS DO COPO
Às dezesseis horas, a luz desceu rente ao quintal e encontrou primeiro a terra trazida da margem. Os três pontos cobertos por Valdo tinham secado em tons diferentes. O mais próximo do buriti clareara nas bordas. O segundo conservava a marca da palma. No terceiro, duas saúvas empurravam grãos escuros para fora. A inspeção óptica começou pela fachada, passou pelo duto aparafusado e demorou sete segundos na janela. Valdo esperava dentro da cozinha, sentado diante da caixa térmica vazia. Nael ocupava o outro lado da mesa. Entre eles havia uma tigela com farinha seca, insuficiente para engrossar uma panela. A câmera suspensa na rua avançou sobre o quintal. Seu feixe percorria o chão em faixas estreitas, comparando altura, temperatura e densidade com imagens compradas pela empresa de aluguel. Nenhum dos dois falou. Toda palavra seria anexada à contestação encerrada no dia anterior. Eu guardo a primeira passagem com um defeito. A imagem mostra a barra junto ao muro, a muda sem folhas, o terceiro ponto coberto. Depois perde quarenta e um segundos. Recuso a continuidade fabricada que a empresa acrescentou mais tarde, embora essa recusa deixe Valdo sozinho diante do intervalo. A luz reapareceu sobre o primeiro furo. Nael ergueu a tigela e soprou a farinha para a borda da mesa. Um pouco caiu no chão. Valdo olhou para ele, depois para a câmera doméstica, que registrava presença e postura, mas não alcançava o quintal inteiro. Você sujou, disse. Soprei errado, respondeu Nael. Valdo buscou um pano junto ao fogareiro. Demorou mais do que a farinha exigia. Umedeceu uma ponta com seis mililitros do copo de Ilva e limpou a mesa em movimentos curtos. Nael reteve o pano quando ele tentou recolhê-lo. Atrás do bar, quando eram novos, Nael e Antônio riscavam o campo de bola com cinza de fogão. A chuva apagava as linhas, os pés abriam outras. Depois ele passou a vender caminhos para as sondas, e a medida deixou de caber numa tarde. Eu vi essa lembrança na ordem errada e retirei dela a chuva. O chão permanecia seco quando Nael aprendeu quanto pagavam por uma curva. A inspeção emitiu um tom baixo. O painel informou divergência superficial e pediu acesso às imagens internas da hora anterior. Valdo podia consentir com a face ou esperar a revisão humana, estimada em três dias. Durante a espera, sua entrega reduzida ficaria retida no pátio. As três porções perderiam conservação antes da manhã seguinte. Nael apertou o pano molhado na mão. Uma gota caiu entre os pés dele. Autoriza, disse. Vai mostrar a barra. Vai mostrar você cobrindo. Valdo passou a língua pelos lábios rachados. A empresa de aluguel chamava aquilo de escolha assistida, delicadeza técnica para o instante em que a fome recebia duas portas e ambas davam no mesmo comprador. Eu escrevo a autorização, mas não possuo o momento em que ele levantou o rosto. A captura corporal chega já convertida em aprovação. A falta me custa a dúvida. A Valdo custa a única prova de que esperou antes de ceder. O painel recebeu a face e abriu as imagens da cozinha. Mostrou a farinha caindo, o pano umedecido, a gota no piso. Classificou a ação como limpeza doméstica. Em seguida pediu o trecho ausente da câmera externa. Nenhum trecho disponível, respondeu a casa. Eu sei quem comprou a recomposição posterior e apago o nome que ela atribuiu ao vazio. Mantenho juntos o defeito e a correção recusada. Com isso, também retiro de Nael a inocência pronta que uma imagem incompleta ofereceria. A câmera da rua desceu mais meio metro. O feixe alcançou o segundo ponto e encontrou diferença de temperatura sob a cobertura. Valdo prendeu as mãos entre as pernas. A película em seu pescoço repuxou quando ele virou para Nael. Se abrir, encontram a cinza, disse. Se ficar, cobram ocultação. A resposta não veio. Nael levou o pano ao quintal e o estendeu sobre a terra quente, perto do primeiro ponto, como quem seca uma coisa pequena. A câmera acompanhou seu corpo. Ele permaneceu inclinado até a luz completar a leitura do terceiro ponto por trás de suas costas. Escrevo de depois e devolvo à cena o tempo que o registro empresarial comprimiu. Foram vinte e oito segundos. Bastaram para a sombra reduzir a temperatura aparente e transformar duas anomalias em uma. O painel classificou apenas o segundo ponto como intervenção recente. A cobrança projetada equivalia a quatro entregas integrais, além da inspeção presencial ainda sem horário. Valdo não autenticou. O prazo ficou aberto até o amanhecer, com retenção das porções. Nael voltou à cozinha e torceu o pano sobre a tigela. A água cinza escureceu a farinha. Eu me lembro do quadro que abandonei por falta de corrente, quando a mão dele despejava a mistura no quintal. Essa parte não existe. Sem ela, Valdo carregará sozinho qualquer vestígio encontrado depois. Nael empurrou a tigela para o centro. Valdo a puxou para si, separou com dois dedos a farinha molhada e começou a formar pequenas bolas. Fez três. Na quarta, parou, olhou a caixa térmica vazia e dividiu a massa restante em duas partes iguais. Nael abriu a boca, mas Valdo já colocava uma delas diante dele. O ex-minerador comeu devagar. Quando terminou, deixou o pano sobre a mesa e estendeu a mão para a camisa presa na tampa da caixa. Valdo não afastou os dedos. O tecido saiu dos dois ao mesmo tempo.
Energia e água
| Geração | 231.677 tokens em 15 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~463 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.719 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |