A ALÇA DOBRADA
Nael amarrou a sandália reforçada e testou o peso do corpo junto ao batente do bar. Valdo esperava no quintal, de pé diante da faixa azul que a poligonal deixava subir do chão quando a tarde perdia luz. As duas caixas recusadas estavam encostadas no balcão. A semente continuava sob a tigela. Vamos antes que feche, disse Valdo. A rota de serviço passava entre a casa de Antônio e o terreno onde eles jogavam bola. Nael tinha corrido ali atrás de uma bola cheia de terra, quando o barranco ainda recebia chuva sem pedir autorização. Agora uma linha de sensores acompanhava a antiga marca do campo, presa a hastes finas, e a terra sob elas permanecia lisa, varrida pelas máquinas de manutenção. Valdo aproximou o rosto do arco azul. A poligonal abriu sobre a pele dele uma leitura de entrega encerrada e outra de retorno pendente. O reservatório alugado ainda o prendia à empresa por vinte dias. A superfície pediu o destino. Curva de baixo, disse ele. A linha não se moveu. Nael chegou mais perto. A luz encontrou a pele antiga de poeira nos seus tornozelos, depois subiu pela perna da calça. Ele conhecia aquele corte no chão antes de existir cerca, quando guiava as sondagens por pedras ocas e recebia por metro. A primeira máquina que levou para dentro do vale atolou perto dali. Ele passou dois dias ensinando homens mais jovens a calçar as rodas com galhos secos. Me põe na rota, disse. Valdo olhou para ele. Se eu entrar sozinho, você mostra o que quer mostrar e depois diz que eu não entendi. A poligonal abriu uma segunda solicitação. Inclusão de acompanhante. O corpo de Nael precisaria ficar vinculado à carga que já fora entregue. Caso saísse pelo outro lado, a responsabilidade pela volta seria dos dois. Valdo leu até o fim. Na faixa menor, quase apagada, apareceu o novo preço de transporte. A empresa de aluguel recalculara os trajetos de abastecimento. O mineral pesado tinha prendido navios e refinarias em negociações que ninguém no vale podia tocar, mas a conta chegava ali, no corpo de quem carregava caixas por uma vala. Cada quilômetro fora da rota principal custaria mais uma fração de crédito. A fração crescia a cada hora de espera. Você quer me cobrar para cumprir o que prometeu, disse Nael. Quero não perder o veículo antes de buscar Antônio. Nael passou a mão pela madeira da porta. O bar tinha uma lasca funda na altura em que Antônio deixava o copo quando precisava ouvir a mensagem do filho. Ficou um tempo olhando aquela cavidade. Você me leva até a curva, disse ele. A volta fica por minha conta. Sua conta é o quê. O caminho inteiro. Valdo franziu a boca. A linha azul continuava entre os dois, esperando a confirmação que autorizaria um homem a atravessar uma terra que ajudara a vender. Do outro lado você não manda em mim, falou Valdo. Nunca mandei. A frase trouxe de volta a tarde da entrega, a parede de terra, as estacas comidas de ferrugem. Valdo abriu a palma junto ao sensor. A poligonal leu seus vasos, pediu a face de Nael e projetou no chão duas sombras de perfil. Nael aproximou o rosto sem baixar os olhos. A autorização durou o tempo de um sopro. A faixa se abriu. Eles entraram. Do outro lado, a terra tinha sido raspada até a camada amarela. O caminho velho seguia sob uma cobertura de poeira compactada, estreito entre valetas vazias. Valdo carregava apenas a alça do reservatório, dobrada na mão. Nael ia devagar, mas não pediu pausa. A cada poucos passos, apontava uma coisa que já não existia inteira. Ali havia um olho dágua. Ali uma moita de murici. Ali o terreno cedia quando chovia dois dias seguidos. Você errou a rota de propósito, disse Valdo. Nael parou diante de um poste torto, quase escondido por uma chapa de contenção. Nael riscou a poeira com a ponta da sandália. Valdo soltou uma risada curta. A câmera de rastreamento no alto do poste baixou o foco para suas bocas. Para eu trazer Antônio. Para você não subir caixa sobre uma casa enterrada. Valdo ficou olhando a valeta. Havia no fundo uma película de água cor de ferrugem, parada entre folhas de pequi. Ele tocou a tela presa ao pulso. A cobrança de espera subira mais uma vez. Se mantivesse Nael vinculado à rota depois do escurecer, perderia a prioridade de transporte quando Antônio reaparecesse no painel da estrada. Você sai agora, disse. Nael olhou para a curva de baixo. Ainda falta uma. Você me mostra da cerca. Valdo voltou para a faixa azul. Encostou a palma no leitor e pediu separação de acompanhante. A poligonal respondeu que a saída de Nael devolveria a ele a condição de corpo sem trânsito autorizado. Para entrar outra vez, precisaria de uma rota nova ou de outra pessoa disposta a dividir a cobrança. Nael atravessou sem discutir. A luz fechou atrás dele, fina como um risco de faca na poeira. Valdo permaneceu do lado de dentro, com a alça dobrada na mão e a curva de baixo abrindo-se adiante, onde um buriti sem folhas sustentava no alto uma única tira verde.
Energia e água
| Geração | 49.370 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~99 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.162 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |