O FILTRO VELHO
O transmissor de Renan cantava sozinho no degrau quando Célia voltou pelo corredor. A voz da menina alcançou o verso interrompido e parou. Restavam treze minutos. Ela trazia a cápsula sob a roupa e o visor aberto na palma. Procurara na rede uma lâmina de ensaio magnético, peça usada para separar poeira de desgaste do minério suspenso no ar. O fornecedor mais próximo mostrava o desenho da peça, mas retirara o preço. Toda a produção dos próximos cinco ciclos estava reservada a um fabricante estrangeiro de veículos, recém-entrado na compra direta de terras raras. Outra oficina oferecia uma lâmina recondicionada pelo valor de oito refeições. A entrega levaria quatro dias. Célia fechou a consulta. A decisão do comprador chegara a Buritaçu como uma ausência do tamanho de dois dedos. Renan ergueu o rosto. A faixa roxa no antebraço escurecera. Ele contou o tempo pela projeção no degrau e estendeu a mão. Não consegui a peça, disse ela. Então devolve. Nael saiu de perto do duto. Fez sinal para que esperassem e entrou no bar. Antônio o seguiu, desconfiado desde a intervenção na placa, mas deixou a passagem livre. A atividade alimentícia continuava suspensa. Sobre o balcão, a peça de leitura retirada do cartucho dividia espaço com três copos vazios e o transmissor que Antônio usava para compor mensagens ao filho. A luz de presença do rapaz estava acesa. Antônio cobriu o transmissor com a tigela rasa. Nael se abaixou diante do primeiro refrigerador do bar, morto havia anos e mantido sob a bancada porque o metal de reposição custava mais que o espaço. O cobre do circuito já fora arrancado para reparar a linha. Ele puxou a carcaça. Atrás dela havia um respirador antigo, endurecido na borda, com duas camadas de filtro coladas pela poeira. Antônio segurou seu braço. Isso ficou aí desde quando, perguntou. Nael indicou a si mesmo, depois desenhou no ar a curva que fazia a antiga escavadeira antes de alcançar o Lajes. Durante a visita, sua fala permanecia interditada, mas o respirador falava pelo contato que tivera com sua boca. Ele o usara quando recebia por metro aberto para conduzir as sondagens. Guardara a peça ao comprar o refrigerador, junto com o recibo digital já extinto e uma chave que perdera a fechadura. Renan levantou-se. Conhecia aquele modelo. Aproximou o rosto do filtro sem tocá-lo. A camada de dentro segura ferrugem das máquinas, disse. A de fora pega o que entra com o ar. Nael rompeu a costura ressecada. A camada interna se desfez em três placas cinzentas. A externa permaneceu rígida, vermelha nas dobras. Uma pequena aranha saiu do encaixe, correu pelo balcão e desapareceu sob a peça de leitura. Do lado de fora, mariposas batiam nas câmeras de rastreamento, atraídas pela luz que substituíra a vegetação da encosta. As folhas dos dois últimos arbustos junto à hospedaria carregavam a mesma película avermelhada, até onde a seiva já não conseguia empurrar broto. Célia colocou a cápsula ao lado do filtro. Restavam oito minutos. Precisava abrir, disse. Você disse que não precisava, respondeu Renan. Ela não pediu desculpa. Retirou do recipiente de coleta uma haste usada para amostras de água e ofereceu a ponta limpa. Renan olhou para Nael. O ex-minerador empurrou a camada externa do respirador até o centro do balcão. A cápsula abriu com um estalo. Célia recolheu menos pó que a cabeça de uma formiga e depositou metade sobre o filtro antigo. As duas matérias aderiram sem diferença visível. Ela inclinou a camada. Ambas correram pelos sulcos e pararam na dobra mais funda. O resíduo interno do respirador, raspado por Renan com a unha, caiu em grãos maiores e deixou um risco escuro. Ainda podia ser coincidência. Nael pegou a peça de leitura retirada do cartucho e aproximou sua borda magnetizada. Os grãos internos avançaram um milímetro. O pó da cápsula e o pó antigo da cava ficaram onde estavam. Renan repetiu o movimento. Uma vez, duas, três. Na terceira, separou a camada externa e guardou-a dentro da própria caixa de ferramentas. Célia entendeu antes de perguntar. Se publicasse apenas a imagem da cápsula, a concessionária procuraria o técnico vinculado ao turno. O resto da época em que ele guiava as máquinas perderia uma metade. Célia capturou as duas poeiras juntas, sem rosto, sem cápsula, sem ferramenta recente. Enviou o material à redação com a procedência atribuída ao ar da cava. O anúncio de veículos ocupava a faixa superior do portal e pagaria a permanência daquela imagem por seis horas. Faltavam dois minutos quando ela fechou a cápsula e a entregou. Renan verificou o lacre, guardou-a contra o peito e recolheu o transmissor da filha. Nael dobrou a metade restante do respirador. Antônio afastou a carcaça do refrigerador, abrindo para ele um vão sob o balcão. Nael não guardou a peça. Caminhou até o alpendre e prendeu o filtro velho na entrada de ar do armário, onde a poeira nova começou a pousar sobre a antiga.
Energia e água
| Geração | 50.146 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~100 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.006 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |