CÁPSULA DE PÓ
Renan sentou no degrau do alpendre com a cápsula de pó entre os pés. A hélice do armário seguia girando atrás da chapa, sem a pancada que chamara seu turno, e o calor do começo da noite já colava a camisa dele nas costas. Sobre a pele do antebraço, a chave de torque deixara uma faixa roxa. A projeção de pagamento permanecia aberta no ar baixo, onde todos podiam vê-la sem chegar perto. O turno suspenso trazia uma cobrança nova. Custo de estabilidade para inteligência artificial. A quantia tirava dele o equivalente a uma refeição e meia, destinada ao reforço elétrico das máquinas que treinavam respostas longe dali e pediam mais mineral ao vale. Renan fechou a mão sobre a cápsula. Antônio veio do corredor carregando uma tigela rasa. Havia dentro três pedaços de mandioca fria, raspados de uma panela antiga. A atividade do bar continuava suspensa, mas ele dividiu um pedaço com Nael, outro com Ilva, e deixou o último diante do técnico. Renan olhou a comida sem tocá-la. Minha filha pediu fruta hoje, disse ele. Ninguém respondeu. Nael mastigava devagar, os olhos na luz que escapava pelas junções do armário. O técnico retirou do ouvido o pequeno transmissor onde guardava a canção interrompida. A voz infantil saiu uma vez, curta, depois cessou no mesmo verso de sempre. Ele não tornou a encaixar o aparelho. A cobrança tinha chegado antes da mensagem dela. Antônio pegou o pedaço de mandioca que estava diante de Renan e dividiu com os dedos queimados. Deu uma metade ao técnico. Guardou a outra no fundo da tigela. Você come agora, disse. Amanhã inventa uma desculpa melhor para ela. Renan soltou uma risada seca, sem força para subir além do peito. Comeu. A mandíbula dele trabalhou depressa, como se alguém pudesse vir cobrar também aquele alimento. Célia permaneceu perto da entrada do corredor. O visor dobrável continuava preso sob a roupa, sem luz. Ela acompanhava a cápsula de pó desde que Renan a recolhera da hélice. A crosta vermelha tinha vindo das frestas da cava, entrara no ar do armário, grudara na umidade das máquinas. O mesmo pó que endurecia a respiração dele podia receber no log o nome confortável de resíduo interno. Ela se aproximou. Você vai entregar isso, perguntou. Renan olhou para a cápsula, depois para a projeção baixa do pagamento. A cobrança se repetia em intervalos, obediente. Uma linha de crédito para resfriamento, outra para estabilidade preditiva, outra para o consumo atribuído à operação que negociava instalar o datacenter no próprio território. Renan apertou a cápsula até a crosta vermelha marcar a palma. Célia encostou o indicador na projeção de pagamento, sem atravessá-la. Ilva se encostou na coluna de madeira. A faixa curta em sua perna já tinha escurecido de terra, mas ela não levou a mão até ela. Olhava a cápsula como quem mede um recipiente sem poder abri-lo. Renan disse que a peça não saía do corpo dele. A cápsula era material de serviço, vinculada ao turno que ainda não terminara. Célia perguntou se ele sabia o que havia no relatório automático. Ele disse que o modelo montaria uma sequência com temperatura, torque, tempo de exposição e conclusão recomendada. A palavra recomendada lhe deu um repuxo no canto da boca. Nael limpou os dedos na própria calça. Depois apontou para a cápsula e fez um círculo no ar, pequeno, repetido duas vezes. Antônio entendeu primeiro. Ele está perguntando se o pó fica igual quando seca. Renan respondeu que sim. Mais leve, talvez. Mais fácil de voar. Nael saiu do alpendre e voltou com uma tigela de metal sem uso, amassada numa borda. Colocou-a no chão. Depois sentou perto dela, esperando. Tinha passado anos mostrando às máquinas por onde cortar, e agora parecia escutar um mineral que ninguém queria nomear perto das máquinas. Célia baixou-se diante de Renan. Me dá vinte minutos, disse. Ele não entregou a cápsula. Ela continuou. Não preciso abrir. Não preciso publicar seu nome. Preciso mostrar que o pó veio de fora do armário e que a cobrança pela energia já chegou antes do datacenter chegar. A fala ficou entre os dois, quente e exposta. Antônio olhou para a estrada escura além da hospedaria. As câmeras de rastreamento no poste acompanhavam o movimento das mariposas. Nenhuma delas alcançava o interior da mão fechada de Renan. Você trabalha para uma redação que cortou seu nome, disse ele. Trabalho para o que sobrou dela. E se eu perder o acesso. Você já perdeu o turno. Renan retirou a cápsula do chão. Pesou-a uma vez na palma. A filha voltou a cantar no aparelho esquecido sobre o degrau, uma voz fina atravessando o verso e falhando antes do fim. Ele tomou o transmissor e o deixou com a face voltada para baixo, depois estendeu a cápsula a Célia. Vinte minutos, disse. Se der meu nome, eu volto para buscar. Ela guardou a cápsula no bolso interno da roupa, junto ao visor apagado. Não prometeu proteção. Ela inclinou a cabeça. Antônio levou a tigela vazia para dentro. Nael ficou olhando a poeira vermelha que ainda marcava a boca do duto. Ilva entrou no corredor atrás de Célia, mas parou antes da curva. Célia seguiu sozinha pela passagem estreita, com a cápsula batendo de leve contra suas costelas.
Energia e água
| Geração | 176.000 tokens em 11 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~352 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.343 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |