A BOLA MURCHA
O recipiente de Célia chiou quando ela o apertou contra a mesa. Uma fenda junto ao bocal soltava o ar em intervalos curtos, e a quarta porção de milho esfriava diante dela sem perder a forma. Ela girou o recipiente, procurou o ponto da rachadura e tornou a apertar. O assobio saiu mais fino. Assim não sobe, disse Nael. Célia encostou o dedo na fenda. A subida até o traçado exigia quase duas horas sob o sol, e o ponto de abastecimento mais próximo vendia água em recipientes selados cujo preço mudava a cada consulta. Naquela manhã, uma unidade custava o equivalente a três dias de hospedagem antes das reservas especulativas. Ela tinha saldo para uma, desde que desistisse do transporte de volta. A jornalista pegou a massa coberta. Comeu metade, guardou a outra no tecido que trouxera preso à cintura. O homem observou a divisão sem oferecer a parte dele. O visor dobrável de Célia vibrou no banco. A inteligência artificial que administrava a redação havia reconhecido sua permanência na casa de uma fonte e reclassificado a visita como participação em ocorrência. O crédito de deslocamento ficou retido até que outro editor avaliasse o conflito. Não havia outro editor desde que o portal dispensara as duas pessoas que ainda respondiam antes das máquinas. Ela leu a notificação uma vez. Depois fechou o visor. Ainda pode ir, disse Ilva. Ir eu posso. Confirmar, completou o homem. Célia pressionou o recipiente novamente. O ar respondeu. Na rua, as carretas aguardavam em silêncio, com os painéis de carga acesos sob a poeira. Nenhum motorista descia. As cabines mantinham as pessoas dentro da faixa de vigilância contratada, enquanto a sombra das caçambas alcançava o capim seco e recuava conforme o sol subia. Nael se levantou e foi até o quarto dos fundos. Voltou com uma bola murcha, de couro sintético partido em seis lugares. Antônio e ele haviam jogado com ela no terreno atrás do bar, antes que o solo recebesse sondas e cercas luminosas. Durante três noites, a bola ficara escondida sobre o primeiro refrigerador do bar, junto do dinheiro que Nael ganhara conduzindo uma escavadeira. Depois o compressor começara a tossir, o dinheiro virara máquina, e os dois continuaram chutando até a câmara interna escapar por uma costura. Antônio conservara a bola quando fecharam o terreno. Nael conservara a câmara. Sentou-se perto da porta e puxou pela abertura um pedaço de borracha escurecida. Esticou o material entre os dedos. Ainda cedeu. Isso segura, disse. Célia aproximou o recipiente. Nael cortou uma tira com a lâmina usada na cozinha, aqueceu a borracha sobre a lateral do fogareiro e enrolou duas voltas no bocal. O cheiro encheu a casa. A terceira volta ficou mais grossa de um lado, e ele a aparou devagar, seguindo uma habilidade que não aprendera guiando máquina alguma. Ilva despejou no recipiente a água reservada para o caminho. Menos de um palmo.
Célia apertou a parede flexível. O chiado cessou. Ela virou o bocal para baixo. Uma gota cresceu na emenda, tremeu e voltou para dentro quando Nael apertou a tira. A água permaneceria ali por algumas horas. A bola, que atravessara os pés dos dois rapazes e vinte anos de poeira, perdera enfim uma parte que não voltaria. Célia colocou o recipiente na cintura. Agora podia subir sem comprar água, mas a retenção do crédito continuava no visor. Se confirmasse a testemunha, a redação automatizada poderia mantê-la classificada como participante. A matéria sairia sem o nome dela, cercada pelos anúncios da operação que pagavam o armazenamento do portal. O homem recolheu a bolsa. A marca do vidro ainda cortava seu rosto, mais clara junto à têmpora. Ilva ajeitou a faixa da perna e ficou diante dele por tempo suficiente para Célia olhar para fora. Você vai junto, perguntou a jornalista. Ele mostrou a hospedagem afetiva no pulso. A condição de testemunha permanecia suspensa, porém a presença civil autorizava o percurso até o início da poligonal. Vou até onde deixarem. Célia abriu o visor e confirmou a participação como terceira testemunha. O prazo da visita parou de diminuir. Em seguida, a redação retirou o nome dela da pauta sobre o traçado e substituiu sua foto por uma imagem produzida de um córrego ainda verde, largo demais para ser o Lajes. Ela não contestou. Guardou o visor contra o corpo. Os quatro saíram para o quintal. Perto do tanque, o buriti novo sustentava uma única folha ereta. Nael passou a bola murcha para o homem, que a levou de volta ao quarto dos fundos. O recipiente reparado bateu duas vezes na coxa de Célia. Nenhuma gota caiu. Quando ela alcançou o portão, Ilva perguntou se a confirmação continuaria valendo depois da matéria. Célia parou sob o captador do beiral. Uma carreta acelerou na estrada alta, cobrindo sua voz e ocupando o registro inteiro. Célia assentiu.
Energia e água
| Geração | 48.248 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~96 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 107 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.697 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |