2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 042 · PRÉVIA

A QUARTA PORÇÃO

Prévia, ainda não impresso

A casa acordou com o ronco baixo das carretas paradas na estrada alta. Vinham uma atrás da outra desde antes do escuro, caçambas cobertas, rodas imóveis na poeira. A carga de concentrado esperava uma autorização que tinha ficado do outro lado do mundo, entre tarifas, refino e sete metais presos em portos. Ali embaixo, o minério continuava saindo do chão e deixando o preço de tudo mais leve para quem comprava de longe, mais pesado para quem media o milho na palma. O homem dormira encostado à parede da sala, sobre a manta fina. A bolsa permanecia junto ao peito. Ilva encontrou os olhos dele abertos quando passou pela porta da cozinha. Você ronca pouco, disse ela. Ele levantou devagar, procurando o rosto dela antes da resposta. Eu estava escutando os caminhões. Nael já moía milho no pilão de pedra, com intervalos longos entre uma batida e outra. O som entrava na casa e voltava pelas telhas, menor. Sobre a mesa havia três porções de massa, separadas numa travessa rasa. Ilva pegou uma delas e amassou com água da bacia, pouca, medida pela cor que a farinha ganhava. Essa é para o caminho, disse Nael. Ela olhou a massa. O caminho de quem. Seu, respondeu ele. O traçado ainda existe. O homem baixou a cabeça. O vínculo da noite tinha tirado dele a condição de testemunha antes de tirar o sono. A visita ao traçado dependia agora de um corpo que não comesse naquela casa, não dormisse sob aquela cobertura, não recebesse comida da mão de ninguém ligado à subida. Ilva dividiu a massa em quatro. Uma parte menor ficou perto do fogareiro apagado. Essa não, disse Nael. Ela cobriu a porção com um prato. É para Célia. A jornalista passou diante do portão naquele instante, carregando um visor dobrável sob o braço e um recipiente vazio preso à cintura. Célia mantinha a última redação da região numa sala acima de uma loja fechada, onde publicava notas curtas antes que a harmonização trocasse os nomes dos compradores por siglas de consulta. Parou ao ver as carretas. Uma película de pó cinzento cobria a barra da calça. Ela vem aqui, perguntou o homem. Vem quando quer saber quem está esperando, respondeu Ilva. Nael deixou o pilão quieto. A massa de milho tinha enchido os sulcos da pedra. Jornalista vê demais, disse ele. Vê o que deixam, ela respondeu. Do quintal veio o estalo seco de uma folha de buriti partindo perto do talo. Um lagarto atravessou a sombra estreita do tanque e sumiu sob o duto preso à parede. Mais acima, o vapor das torres da mineração passava rente às copas, levado para fora da bacia. As carretas esperavam porque o refino distante decidira fechar a mão. O datacenter prometido para Buritaçu continuava recebendo propostas de terreno, circuito fechado, emprego técnico, futuro refrigerado. A água do Lajes já tinha sido chamada para a mesa antes de qualquer máquina chegar. O homem pegou a porção que lhe cabia e ficou olhando a massa. Se ela aceitar, você perde a visita, disse ele. Ilva acendeu o fogareiro com a autorização de chama que ainda restava para aquele ciclo. A luz azul subiu sob a chapa. Ela colocou primeiro a porção de Nael, depois a do homem. A quarta continuou coberta. Eu já perdi a visita que tinha, disse ela. Nael mexeu o ombro, como fazia quando queria afastar uma frase sem expulsar quem a dissera. Tirou da prateleira uma cuia pequena e despejou nela o último resto de pequi cozido. Empurrou a cuia para o homem. Come. Ele não tocou. Célia voltou pelo portão, agora sem o visor. Trazia no rosto a marca clara de onde o aparelho ficara preso durante a noite. Viu a quarta porção, as carretas na estrada, o homem sentado perto demais da porta. Não pediu explicação. O cheiro de milho quente ocupava a cozinha e deixava pouca margem para mentira. Tem carga presa lá em cima, disse ela. O comprador aumentou a reserva das casas perto da estrada. Antônio vai gostar, disse Nael. Antônio vai cobrar, respondeu Célia. Ilva virou a massa na chapa. A borda se rompeu, revelando uma parte ainda crua. Ela apertou o centro com a colher e esperou o calor alcançar o meio. Você pode subir com a gente, disse. Célia olhou para o homem. Depois para Nael. Subir para quê. Para ver a água indo embora. Lá fora, uma carreta tentou avançar. O motor cresceu, as rodas cavaram duas faixas na poeira e o veículo parou de novo. Dentro da cozinha, Célia segurou o recipiente vazio contra a barriga.

Eu posso ver, disse ela, mas não vou prometer que volto do mesmo lado.

Energia e água

Geração64.064 tokens em 4 chamadas ao modelomedido
Água~128 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo109 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução~6.186 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗