2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 040 · PRÉVIA

CUPINS NO BATENTE

Prévia, ainda não impresso

O primeiro som foi de unhas pequenas correndo por dentro do forro da hospedaria. Antônio ouviu do balcão, levantou os olhos para o teto e esperou a corrida parar. Veio outra, mais rápida, depois uma pancada seca contra a veneziana do quarto reativado. O homem da outra cidade ainda estava diante da casa de Ilva, a bolsa no chão e a faixa luminosa pedindo vínculo entre seus pés. Nael atravessou a rua sem chamar ninguém. Antônio fez um sinal curto com a mão. Tem bicho lá em cima, disse. O quarto tinha sido aberto havia menos de uma hora. A plataforma projetava na porta a tarifa de permanência, maior do que na noite anterior, embora a cama fosse a mesma e o reboco tivesse a mesma rachadura perto da janela. A cobrança chamava aquilo de disponibilidade territorial. Em regiões onde o datacenter encontrava recusa, dizia a linha menor, áreas liberadas recebiam valorização compensatória. Antônio apagou a projeção com a palma. A tarifa voltou no rodapé, menor, como uma vergonha treinada. Subiram os quatro. O corredor guardava o cheiro de colchão fechado e óleo dos dutos presos à fachada. Do outro lado da janela, as torres de resfriamento da operação mineral soltavam uma faixa branca que não chegava a fazer nuvem. Subia e se desfazia no calor. A água do Lajes entrava ali, passava por máquinas que sustentavam a inteligência artificial, deixava a bacia em vapor. O quarto recebia o resto, poeira e vibração. O Cantochoro da encosta batia contra o vidro. Trazia uma pena comprida presa na fenda da veneziana. Bateu uma vez, caiu sobre a cama, levantou de novo antes que alguém o alcançasse. O corpo pequeno parecia feito de carvão e ferrugem. Nael ficou perto da porta, sem avançar. Ele procura saída, falou Antônio. A janela tinha uma película térmica instalada pela hospedaria quando ainda recebia trabalhadores de turno. A película devolvia a própria imagem do pássaro, e ele investia contra o outro corpo, aquele que nunca perdia a posição. Ilva entrou devagar. O homem segurou a bolsa contra o peito, como se tivesse esquecido que a deixara no corredor. Ela puxou o lençol da cama e ergueu as duas pontas. O pássaro veio baixo, raspando o ventilador parado. Antônio fechou a porta. Nael se sentou no chão, as costas no batente. Você está fazendo sombra demais, disse Antônio. Nael levantou a cabeça. Você ficou gordo de dar conselho. Faz parte do bar. Faz parte de vender gelo caro. Antônio riu uma vez, sem som, e apontou para o teto. Você acha que gelo nasce onde. O pássaro bateu outra vez no vidro. A pena presa se soltou. Ele caiu dentro do lençol, abriu as asas, riscou a mão do homem e ficou imóvel por um instante. Ilva fechou o tecido em volta dele. O coração vibrava na palma dela, ligeiro demais para caber numa contagem. No corredor, o homem olhava o risco vermelho que recebera entre o polegar e o pulso. Ela baixou o pano. Segura aqui, disse. Ele segurou. O Cantochoro mordeu o nó do dedo dele e soltou uma coisa rouca, quase uma reclamação. Ilva encostou a unha na fenda da veneziana. A lâmina de alumínio tinha cedido onde os cupins haviam comido o suporte de madeira. Pequenos grãos claros cobriam o piso. Antônio se abaixou. Os cupins tinham aberto uma linha até o batente, seguindo a umidade que o quarto retinha desde a reativação. Não era muita. Bastara para trazer uma colônia para dentro da hospedaria. Quando eu era menino, disse Nael, eles apareciam depois da chuva. E agora, perguntou Antônio. Eles procuram água na madeira, disse Nael. Lá fora, as torres continuavam soprando a água que faltava nas casas. O Cantochoro se debateu sob o pano. Ilva abriu uma fresta e o homem levou o embrulho até a janela. Ela tirou a película da parte baixa do vidro, puxando devagar. O adesivo saiu em tiras opacas. Por trás dele, o mundo voltou a ter fundo. O pássaro demorou a entender. Ficou sobre o peitoril, a cabeça inclinada, vendo o buritizal ralo depois das casas. Então voou para a copa mais baixa, onde duas folhas secas raspavam uma na outra. O quarto ficou com a veneziana aberta, cupins no piso e uma janela sem película. Antônio chamou a limpeza automatizada pelo painel do corredor. A resposta veio com uma exigência de isolamento do ambiente por infestação ativa. A hospedaria perderia a classificação habitável antes de o homem descer a escada. Ele olhou para Ilva. A casa dela estava a poucos passos. A soleira seguia acesa, pedindo que alguém desse nome à proximidade. Antônio recolheu do chão um grão de madeira mastigada. Amassou entre os dedos. A tarifa do quarto tornou a aparecer no pulso dele, acrescentando custo de desinfestação. Nael foi para a rua e ficou diante do buriti, acompanhando o ponto escuro do pássaro até ele sumir entre as folhas. O homem sentou no degrau da hospedaria. Ilva trouxe a tigela de milho coberta. Ele comeu com a mão esquerda, devagar, enquanto ela separava os grãos que haviam endurecido demais.

Não falaram da visita, nem do consórcio, nem da pergunta luminosa entre a casa e a rua. Antônio voltou ao balcão. Nael apontou uma nuvem pequena no horizonte e disse que ela morreria antes de chegar. Antônio apostou que cairia sobre a estrada. Os dois ficaram olhando, como se o céu ainda tivesse obrigação de escolher um deles. Quando o escuro fechou o vale, o homem limpou os dedos no pano da tigela e perguntou a Ilva. Tem espaço no alpendre?

Energia e água

Geração135.750 tokens em 9 chamadas ao modelomedido
Água~272 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo108 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução~7.469 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗