A SEMENTE DE BURITI
Antônio voltou da estrada com a bolsa térmica mais leve e a sola coberta de poeira branca. O embarque fechara quando ele ainda estava no primeiro controle corporal. A administradora do plano médico reteve a passagem diante do saldo aberto, ofereceu prioridade de pagamento e uma nova janela de visita para dali a quatro dias. Quatro dias cabiam inteiros no pulso inchado de Divina. Ela estava sentada à mesa da cozinha, a mão apoiada sobre um prato virado. A pele junto ao polegar tinha voltado à cor dela, mas os dedos permaneciam separados, como se guardassem alguma coisa invisível entre eles. A chave continuava ao lado do sal. Você perdeu, ela disse. Antônio deixou a bolsa no banco. Perdi o embarque. O painel doméstico abriu no alto da parede uma cobrança menor que a da tarde, acompanhada de juros por vinte e três minutos de atraso. A empresa que vendia cobertura clínica ao vale chamava aquilo de recomposição assistida. Antônio leu a frase até o fim. Depois puxou a projeção para baixo com a palma e ela acompanhou sua mão, obediente, até ficar sobre a mesa. Divina olhou para a cozinha. A terceira tigela ainda estava coberta. O milho duro tinha formado uma pele nas bordas. Vai comer isso frio, perguntou. Ele abriu o armário de baixo, encontrou a peneira de metal e uma panela baixa. Tirou do recipiente o milho endurecido, apertou os grãos entre os dedos e separou os que ainda cediam. Os secos foram para a peneira. Os outros voltaram à tigela. Havia um modo de aproveitar comida parada sem gastar mais do que uma xícara de água, desde que o fogo fosse baixo e a farinha entrasse no instante certo. Antônio aprendera com a mãe, quando o bar ainda tinha duas mesas no quintal e Nael aparecia depois do futebol com a canela suja de barro. Pôs a panela sobre a chama curta. Mediu a água numa tampa funda, duzentos mililitros. Divina viu o volume desaparecer no fundo de alumínio e não comentou. Antônio deixou ferver até as primeiras bolhas quebrarem sem força. Então despejou o milho aos poucos, esmagando os grãos contra a peneira com uma colher de cabo rachado. A colher não podia parar. Se parasse, a massa pegava no fundo e o pouco de água virava crosta. Ele mexeu em círculos apertados. O vapor subiu e grudou no rosto dele. Seus antebraços endureceram primeiro, depois os punhos. A chama baixa demorava mais. O erro custava uma refeição e mais água para soltar a panela. Divina tentou fechar a mão boa sobre o prato. Deixa eu. Você não fecha a outra. Uma mão basta para mexer. Ele inclinou a panela. A massa resistiu, grossa, puxando a colher para baixo. Antônio raspou o fundo com a ponta achatada, trouxe a parte mais escura para cima e tornou a espalhá-la. Havia quem chamasse aquilo de mingau de sobras. Ele chamava de almoço quando ainda tinha menino correndo entre as mesas. Luzia apareceu na porta dos fundos com o cabelo preso por um elástico azul e uma semente de buriti na boca. Parou diante da panela. Parece cola, disse. Parece comida, respondeu Antônio. A menina tirou a semente da boca e a examinou contra a luz. Tinha uma rachadura no meio. Se colar na boca, eu vou embora. Você veio pedir prato. Vim ver se Divina morreu. Divina ergueu a mão menos inchada. Luzia riu, sem alegria nem pena, apenas porque a mulher estava viva e lhe mostrava os dedos. Depois pediu uma ponta da massa antes que esfriasse. Antônio serviu num pires lascado, soprou duas vezes e entregou. Luzia provou. Fez uma careta longa. Faltou sal. O sal está na mesa. Ela pegou o recipiente, girou a tampa e despejou três grãos na palma. Contou quatro. Voltou a contar cinco. Antônio viu que ela guardava um deles sob a unha. Você está roubando sal, disse. Estou corrigindo a conta. Ela saiu mastigando, com o pires quente nas duas mãos. A semente de buriti ficou sobre o batente. Ninguém a recolheu. Antônio baixou a chama e continuou raspando o fundo. Quando a massa soltou uma faixa limpa de alumínio, dividiu em duas tigelas. A porção de Divina recebeu os grãos mais macios. A dele ficou com a parte que quase queimara.
O painel tornou a acender. A administradora aceitava pagamento parcial se ele autorizasse o débito da reserva de deslocamento. A quantia cobriria pouco mais de um terço do aplicador usado. O restante cresceria até a próxima visita possível ao filho. Divina levou a colher à boca com dificuldade. Engoliu devagar. Paga, disse. E a viagem. Você já não foi. Ele olhou para a bolsa térmica. As frutas continuavam dentro, amassadas de um lado. A autorização perdida não voltaria naquela noite. A localização registrada do filho devia estar apagada ou em outro bairro da capital, mas Antônio não abriu a tela. A promessa de quatro dias ficava mais cara quando era vista. A administradora esperou sobre a mesa. A concessionária que mantinha o contrato de saúde recebia a taxa. O banco de crédito cobrava a demora. A clínica que recusara Divina permanecia fora da cobrança, limpa como uma parede sem mão encostada. Antônio aproximou o rosto do painel. A luz leu suas pálpebras, pediu a digital e reteve seu dedo por três segundos a mais do que o costume. A reserva de deslocamento diminuiu. A passagem seguinte perdeu a prioridade de horário. O saldo aberto caiu, mas não fechou. Divina pousou a colher. Agora a coleta. A torneira continuava fechada pelo perfil noturno. A ampola vazia permanecia na soleira, dentro da tigela funda. Antônio enxaguou a colher na pouca água da panela, esfregou o fundo até retirar a crosta e guardou o utensílio sobre o fogão. Depois pegou a chave da cozinha ao lado da mão de Divina, abriu a porta dos fundos e saiu para chamar quem pudesse acompanhar os dois.
Energia e água
| Geração | 198.620 tokens em 16 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~397 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 108 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.879 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |