O APLICADOR MÉDICO
Antônio levantou a tigela funda antes que Divina pisasse no alpendre. Uma abelha permanecia presa entre o pano úmido e a madeira, debatendo as asas. Divina tentou afastá-la com dois dedos. O ferrão entrou na base do polegar. Ela sacudiu a mão uma vez. A tigela caiu de lado, a ampola limpa rolou até a soleira e parou junto à faixa luminosa. Antônio esmagou a abelha com a sola, puxou Divina para dentro e apoiou a mão dela sobre a mesa. A pele já subia em volta do ponto vermelho. Sou alérgica, disse ela. Quanto. Da última vez, a boca inchou em vinte minutos. A autorização de visita ao filho perdera quarenta e três minutos. A estrada exigia quase duas horas, mais a fila corporal no embarque, alongada havia dias porque o preço da energia encarecera cada veículo. Antônio abriu a bolsa térmica. Retirou duas frutas, o recipiente de sal e um aplicador médico lacrado que comprara para a viagem. O saldo vinculado ao corpo mostrava apenas um crédito de emergência. Divina viu o aplicador. Isso era para você. Para ninguém, se vencer. Ele lavou três dedos com a água guardada numa garrafa, quinze mililitros contados pelas marcas do recipiente. Limpou o ferrão sem apertar a bolsa de veneno. Depois encostou a unha pela lateral e raspou até o filamento escuro sair inteiro. Divina respirava pela boca, curta e depressa. Antônio rompeu o lacre do aplicador com os dentes. O painel doméstico reconheceu o medicamento e pediu indicação clínica. Ele informou reação aguda. A inteligência artificial do plano recusou cobertura porque a paciente estava vinculada ao bar como auxiliar ambiental, categoria que transferia o atendimento à autoridade responsável pela coleta. Usa, disse Divina. Se usar em você, pago reposição integral. Usa. Ele pressionou a ponta contra a coxa dela por oito segundos. O êmbolo interno desceu com um ruído seco.
Divina fechou os olhos no quarto segundo, abriu no sétimo. Antônio manteve o aplicador imóvel até o visor apagar. Depois marcou a hora no painel da cozinha e contou a pulsação dela com dois dedos no punho. Cento e vinte e seis. A autorização de visita perdeu mais seis minutos. O crédito de emergência desapareceu do saldo, seguido por uma cobrança equivalente a onze dias de gelo vendido no verão anterior. O plano ofereceu parcelamento mediante autenticação facial. Antônio virou o rosto. A proposta continuou projetada sobre a mesa, paciente como uma dívida que aprendera boas maneiras. Divina puxou o recipiente de sal, mas a tampa escapou e bateu no chão. Antônio se abaixou, recolheu o recipiente antes que rolasse para fora e limpou a borda na própria camisa. Ao se erguer, esbarrou na mesa. A projeção do parcelamento tremeu e cobriu o pulso inchado dela. Lá fora, as abelhas bebiam do pano. O buriti mantinha quatro folhas verdes no alto, cada uma menor que a anterior. Atrás dele, a poeira da cava repousava sobre as flores baixas e fechava suas corolas antes do escuro. Um besouro tombou no peitoril, moveu as pernas no ar e ficou assim. Luzia passou pela janela levando três recipientes vazios, contou quatro em voz baixa e voltou dois passos para conferir. Ninguém a chamou. Antônio ergueu a mão de Divina acima da altura do peito. Mediu o inchaço usando a largura do próprio dedo, primeiro um, depois quase dois. Afrouxou a pulseira corporal dela antes que prendesse a circulação. Em seguida enrolou um tecido limpo ao redor de uma porção selada de alimento frio e colocou a compressa sobre a picada. Dez minutos, disse. Se a língua pesar, vamos ao posto. E sua viagem. Ele olhou o ponto de presença do filho. O círculo havia mudado de lugar outra vez. A autorização restava por menos tempo que o percurso completo. Antônio abriu a mensagem apagada, encontrou apenas o campo vazio e gravou três palavras. Estou tentando chegar. Ouviu a própria voz antes de enviar. Apagou tentando. Ficaram Estou e chegar, separados por um silêncio que o assistente preencheu com uma promessa de horário. Ele rejeitou a predição e enviou somente Estou chegando. Divina abriu os olhos. Isso é mentira. É atraso. A língua dela se movia sem peso. A pulsação caiu para cento e oito. Antônio retirou a compressa, examinou a pele, refez o embrulho com outra face do tecido e aguardou mais cinco minutos. Ao final, o inchaço não avançara além da segunda marca. Na soleira, a ampola continuava vazia. A coleta oficial podia chegar durante a ausência dele, e Divina já não conseguia fechar a mão que deveria segurar o tubo. Ela tentou alcançá-lo. Antônio segurou seu punho. Hoje não, disse. A faixa de responsabilidade compartilhada descontou uma hora do prazo por coleta adiada. O painel informou que nova tentativa exigiria acompanhamento dos dois. Divina leu, respirou fundo e empurrou a bolsa térmica na direção dele. Vai. Antônio recolocou as frutas, deixou o sal e guardou o aplicador gasto para comprovar o uso. Ajustou a bolsa contra o peito. Antes de sair, pousou a chave da cozinha ao lado da mão inchada de Divina, atravessou o alpendre e correu para a estrada.
Energia e água
| Geração | 75.275 tokens em 6 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~151 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 109 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.017 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |