2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 035 · PRÉVIA

A SOVELA NA SOLA

Prévia, ainda não impresso

A sovela entrou na sola com um estalo curto. Nael segurou a sandália de Antônio entre os joelhos, encontrou o furo antigo pelo tato e empurrou a ponta mais dois milímetros. A borracha, ressecada pela poeira branca, abriu uma linha até a borda. Perdeu, disse Antônio. Já estava perdida. Nael retirou a ferramenta, aqueceu a ponta no fogareiro do quintal e pressionou a fenda até as margens amolecerem. Fazia aquilo sentado no banco baixo, depois do expediente de ninguém, sob o duto de vigilância preso ao beiral da casa. O joelho ruim aceitava a sandália por alguns minutos, depois começava a tremer. Ele mudava a pressão sem interromper o trabalho. Antônio esperava junto à mesa externa. Tinha ido buscar acompanhamento para a coleta e chegara com um calçado que não suportaria a fila corporal do embarque seguinte. Mostrara a sola. Nael buscara a sovela. Da última vez, isso prendia com lâmina, disse Antônio. Lâmina acabou. Acabou onde? Nael apontou com o queixo para uma pequena presilha partida sobre a mesa. Era uma peça de liga clara, leve o suficiente para não cortar a borracha durante a caminhada. Durante anos, vinha embutida em calçados de trabalho e custava menos que um prato servido no bar. Havia seis dias, os reparadores do vale recebiam somente unidades bloqueadas por licença. Dois compradores estrangeiros disputavam a técnica de purificação do magnésio usado na liga. Enquanto os painéis jurídicos calculavam propriedade, a presilha simples chegava a Buritaçu pelo preço de três refeições suspensas. Tenho uma usada, disse Nael. Não vou tirar da sua. Não cabe mais em mim. Ele trouxe de dentro uma sandália larga, com a correia comida de suor e areia. Virou a sola. A presilha permanecia inteira sob duas camadas de borracha fundida. Aquele calçado conhecia caminhos que já pulsavam em azul. Nael o usara quando recebia por metro para conduzir sondas entre o Lajes e as elevações secas. Antônio lembrava dele chegando ao bar com os pés cobertos de lama escura, antes que a lama ganhasse rótulo mineral e preço de exportação. O primeiro refrigerador ficara escondido três noites sob a mesa da cozinha, pago com uma dessas caminhadas. Nael enfiou uma espátula fina sob a presilha. A cola antiga resistiu. Ele aqueceu o metal por baixo, esperou a borracha ceder e levantou uma extremidade sem torcê-la. O cheiro queimado fez Antônio recuar. Se empenar, acabou, disse Nael. Quanto quer? Que horas? As câmeras de rastreamento giraram no beiral. Os dois acompanharam o movimento e calaram até a lente apontar para a rua. Antônio aproximou o rosto da mesa. Preciso de alguém na cozinha enquanto Divina e eu fazemos a coleta. Para olhar? Até o resultado sair. Nael continuou a levantar a presilha. Um milímetro, depois outro. O tremor passou do joelho para a espátula. Ele parou, apoiou o pé no chão e respirou seis vezes. A ponta finalmente se soltou. Nael mergulhou a peça numa caneca com dois dedos de água usada para lavar ferramentas. Uma película preta subiu e ficou na superfície.

Ele raspou o resíduo com a lateral da sovela, secou o metal na barra da camisa e o encaixou na fenda da sandália de Antônio. A presilha era maior que o sulco. Nael cortou dois recessos na borracha, iguais na profundidade, e pressionou a liga aquecida até ela desaparecer. Passou um cordão sintético pelos furos, cruzou por dentro e puxou com um alicate. A mão fechou duas vezes. Na terceira, a pele dos dedos perdeu cor. Antônio tentou tomar a ferramenta. Se puxar torto, rasga. Nael prendeu o cordão com três voltas, queimou a sobra e esmagou o nó ainda mole dentro da sola. Depois pousou a sandália no chão. Calça. Antônio enfiou o pé e caminhou até o portão. A presilha não rangeu. Voltou, flexionou a sola e sentiu o metal acompanhar a dobra. A dívida médica crescera mais uma fração durante o conserto. O painel da casa de Nael projetava ofertas de quitação sobre o tampo da mesa, pois reconhecera Antônio pela face quando ele entrou. Uma delas tomava o restante da reserva de deslocamento e liberava a cozinha para análise prioritária. A clínica receberia antes da coleta. O filho continuaria quatro dias adiante. Nael guardou a sovela. Vou com vocês, disse. Depois você me leva até a poligonal. Para quê? Quero ver onde enterraram o caminho do campo. Antônio testou a sandália mais uma vez, abriu o portão e saiu andando na direção do bar.

Energia e água

Geração46.434 tokens em 4 chamadas ao modelomedido
Água~93 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo108 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução~6.105 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗