2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 029 · PRÉVIA

A CAMISA DA VIAGEM

Prévia, ainda não impresso

Antônio já havia dividido o milho quando Edna entrou pela cozinha com a curva de cobre apertada no pano. Pôs duas tigelas na mesa e deixou a terceira junto ao fogão, coberta por um prato. A porção coberta pertencia a quem estava ausente. Desde que Mariana partira, ninguém perguntava quando voltaria. Restavam vinte e dois minutos. A cozinha ficava atrás do bar, separada do balcão por uma cortina de fibra que retinha o cheiro de gordura e deixava passar as vozes. Ali dentro, a câmera da porta alcançava apenas uma faixa do piso. Antônio empurrou a cadeira dessa faixa para o canto e apontou o assento para Edna. Come, disse. Ela colocou o pano sobre a mesa. A curva bateu na madeira. Levo primeiro. Você já levou uma vez e escondeu. Edna ficou em pé. Antônio sentou diante da tigela menor, a que tinha menos milho e nenhum pedaço de pequi. Na casa dele, quem servia comia por último e recebia o fundo da panela. O costume vinha do tempo em que a hospedaria ocupava dois quartos, e viajantes chegavam depois do escuro pedindo cama, banho e comida. Agora os quartos guardavam dutos desmontados, recipientes térmicos e uma cama que ninguém alugava havia sete meses. Edna puxou a cadeira. Comeu uma colherada. Uma faixa de preço acendeu no vidro da cozinha, alimentada pela cooperativa de reaproveitamento que comprava metal doméstico. O cobre limpo caiu quase um terço. A serpentina ainda presa ao refrigerador valia, naquela manhã, menos de metade da passagem para a capital. Antônio leu o valor sem se levantar. Retirou do alto do armário um recipiente com arroz selado e o colocou ao lado da terceira tigela. Guardava aquela porção para a viagem. O lacre informava seis meses de validade. Ele o rompeu com os dentes. Edna parou de mastigar. Você ia levar isso, disse ela. Ia. Ele despejou metade do arroz na tigela coberta e a outra metade na dela. Alguns grãos ficaram presos ao recipiente por eletricidade estática. Antônio bateu o fundo contra a mesa até soltá-los. A curva podia ter pago uma parte, falou Edna. Pagava ontem. A frase ficou entre os dois com a aspereza do cobre cortado. Do lado de fora, alguém abriu a torneira do bar. A tubulação trabalhou sob o piso durante vinte e nove segundos, mantendo a mesma demora da medição anterior. A caneca encheu. Nenhuma voz comemorou. Edna empurrou a tigela para Antônio. Ele devolveu apenas o pedaço de pequi. Ela o partiu com a colher e deixou uma metade na borda do prato dele. A casa governava a fome por posições. O ausente recebia primeiro, o visitante recebia o que ainda tinha sustância, o dono raspava o fundo. Edna ocupava duas posições incompatíveis. Tinha sido recebida para comer e precisava sair levando uma parte da casa como prova contra o bar. Antônio resolveu a contradição cobrindo a curva com o mesmo pano que usava para coar o milho. O tecido guardava uma mancha antiga de óleo e a marca redonda de uma panela. Não entrega o pano, disse. Eles vão querer a peça como foi encontrada. Encontraram na bolsa de Ilva. Então leva sem. Antônio puxou o cobre. Edna segurou a outra ponta. Por um instante, cada um ficou com metade da curva, e a dobra feita anos antes apareceu entre as mãos. Nael a reconhecera pela queimadura que ela deixara. Antônio lembrava de outra coisa. Na noite da instalação, os dois haviam dormido no chão da cozinha para ouvir se o refrigerador puxaria água da pia. A cada partida do motor, Nael acordava e contava até oito. Antônio fingia continuar adormecido para que o amigo repetisse a contagem. Soltou a peça. Edna a pousou diretamente sobre a mesa. Restavam onze minutos. Antônio abriu o compartimento inferior do fogão e retirou uma bolsa térmica pequena. Dentro havia duas frutas enrugadas, um recipiente de sal e uma camisa dobrada. A camisa era para a capital. Ele a sacudiu uma vez, alisou o tecido sobre a cadeira e tornou a dobrá-la, menor. A faixa de preço continuava acesa no vidro. Edna terminou o milho. Levantou-se com a tigela nas mãos, mas Antônio indicou a bacia ao lado da pia. A pouca água usada para lavar a louça ficava ali até a noite, quando servia aos vasos do quintal. Ela raspou os grãos para dentro da boca, passou dois dedos molhados pelo fundo e verteu aquela água na bacia. Seis minutos. Antônio embrulhou a curva na camisa da viagem. Dessa vez Edna não discutiu. Pegou o volume e o prendeu contra o peito. A terceira tigela continuava coberta para Mariana.

O arroz da viagem inchava sob o prato, absorvendo o caldo do milho. Edna atravessou a cortina, passou pelo balcão sem olhar a torneira e saiu correndo com a camisa de Antônio em volta do cobre.

Energia e água

Geração97.971 tokens em 9 chamadas ao modelomedido
Água~196 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo108 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução~6.432 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora
Como a conta é feita ↗