A VEDAÇÃO RACHADA
A bandeja de gelo de Antônio tinha seis cavidades vazias e duas ainda ocupadas por água turva, já sem forma. Ele a inclinou sobre o balcão do bar e calculou com o dedo o que podia vender antes do calor comer o resto. A nova cobrança apareceu na faixa de saldo do estabelecimento. Proteção residencial, dizia, e retirava crédito de cada unidade ligada à rede para garantir que a expansão refrigerada não chegasse inteira à conta das casas. Antônio fechou a projeção com a palma. Edna entrou pelo alpendre, trazendo nos joelhos a poeira da cabine. A camisa grudava nas costas. Desde que Mariana saíra, ela passara horas junto das bombas, abrindo e fechando passagem em frações pequenas, escutando motores que lhe davam apenas o mesmo ruído de antes. Tem uma linha enterrada sob o bar, disse ela. Antônio olhou para a bandeja. Tem muita coisa enterrada sob este bar. A vedação pode estar puxando ar por ali. Ele conhecia a tubulação antiga. O primeiro refrigerador do bar fora instalado quando Nael ainda guiava escavadeira por metro de chão entregue, e a água para o condensador vinha de uma derivação feita atrás da cozinha. Depois a operação mineral tomou o ramal, instalou medidores e declarou o trecho improdutivo. Antônio mantivera a memória da curva porque uma vez por ano precisava chamar alguém para desentupir gordura e areia do tubo que sobrara. Não vou cavar para você abrir mais uma conta, disse. Edna colocou sobre o balcão uma peça curta de borracha, retirada da caixa da bomba. A borda tinha uma mordida funda, como se o metal a tivesse mascado por meses. Se eu achar a entrada de ar, a bomba volta a segurar pressão. Se não achar, a vila passa a noite com cano seco. Antônio pegou uma das duas pedras de gelo e a envolveu num pano. O cubo era água comprada de Valdo, transportada de caminhão, congelada com energia que agora pagava a própria proteção. Guardava aquele gelo para a tosse de quem chegava tarde demais ao bar. Apertou o pano contra o pulso e sentiu o frio desaparecer depressa. Você vai me dever isso, falou. Edna assentiu. A dívida não recebeu nome nem prazo. Nos fundos, a cozinha conservava o fogão apagado e uma pia sem brilho. A torneira abriu sob a mão de Antônio e produziu ar quente, depois um fio que morreu antes de tocar o ralo. Ele afastou uma caixa de mantimentos, puxou a grade do piso e encontrou a tampa de acesso, coberta de areia endurecida. Edna ajoelhou. O risco antigo sobre o olho esquerdo perdeu a cor quando ela fez força na trava. Adair passou na rua, Adair que rondava a poligonal e conhecia as linhas azuis da cerca melhor que os caminhos da vila baixa. Levava dois canários em compartimentos de transporte presos ao peito. Não diminuiu o passo ao ouvir o metal ceder. Debaixo da grade, o tubo antigo corria rente à fundação. Edna encostou o pano gelado em três pontos. Nos dois primeiros, a água se desfez sem deixar marca. No terceiro, o pano permaneceu úmido e frio por mais tempo. Ela passou a unha pela junção e encontrou uma vibração fina, quase imperceptível. Antônio se abaixou ao lado dela. Foi aqui que Nael mandou pôr a curva, disse. Para o motor não beber da torneira do bar. Edna levantou os olhos. Sabia que Nael tinha vendido caminhos à mina, sabia menos sobre aquilo que ele tentara preservar dentro deles. A operação mineral trocou o motor, disse Antônio. Depois mandou fechar a derivação. Quem fechou não conhecia a casa. Ela retirou a abraçadeira corroída com cuidado. A vedação estava rachada na parte de baixo, escondida pela parede do tubo. O ar entrava por ali e subia até a bomba, fazendo a água perder corpo antes de alcançar as torneiras. Era uma falha pequena, feita de borracha e ferrugem, capaz de deixar uma rua inteira esperando diante de recipientes vazios. Edna tinha material para uma contenção provisória. Faltava uma faixa de compressão, guardada na cabine, e a cabine ficava além da poligonal. Antônio ofereceu o pano do gelo. Isso não segura, ela disse. Segura até alguém voltar. Ele rasgou o tecido ao meio. A água gelada escorreu pelos dedos dos dois e sumiu na areia sob a grade. Edna enrolou a faixa na junção, apertou com a abraçadeira velha e usou o peso do joelho para manter a pressão enquanto Antônio segurava o tubo.
A bomba respondeu ao longe. Primeiro uma nota só. Depois outra, mais baixa, sem o tremor duplo que Mariana escutara antes de partir. Antônio não soltou a tubulação. Se ela abrir de novo, você vem antes de vender solução para eles, disse. Edna continuou comprimindo a faixa. Pela primeira vez desde que recebera a escala, alguém lhe dava uma obrigação que não cabia no turno. Quando o fio voltou à pia, Antônio colocou a mão sob ele, esperou encher a concha e fechou a torneira. Depois saiu pela cozinha carregando a bandeja vazia, em direção à rua onde a água começava a chegar.
Energia e água
| Geração | 49.986 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~100 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 109 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.736 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |