A TAMPA TORTA
As saúvas roíam a tampa da caixa térmica com um ruído seco, pequeno demais para acordar Nael. Valdo ouviu primeiro. Estava no alpendre, sentado perto do refrigerador aberto, separando os três pedaços de cordão mineral sobre um pano de cozinha. Quando voltou para dentro, a caixa já tinha tombado junto à mesa. Uma operária arrastava o fragmento maior pela fresta do piso. Ilva viu o risco preto avançar entre as patas, depois viu outras formigas se agruparem atrás dele, confundindo a fibra endurecida com matéria de ninho. A linha seguia para a cozinha. Debaixo daquele chão, perto demais da bacia onde lavavam os poucos utensílios, passava a volta que Nael descrevera. Pega, disse Valdo. Ela ajoelhou junto à caixa, mas as saúvas abriram duas rotas. Uma foi para o quintal, carregando barro novo. A outra dobrou sob o fogão apagado. Valdo ergueu o pé e parou antes de esmagá-las. Se matar uma, elas voltam para a fresta, falou ele. Nael dormia no quarto de Antônio, de lado, com a sandália reforçada junto à porta. Tinha passado a noite olhando o barranco, atento ao som da esteira batendo na terra. Ilva conhecia a respiração curta que vinha depois dessas vigílias. Conhecia também a maneira como ele acordava e oferecia um caminho inteiro para não ser o homem que perdera o rumo. Valdo olhou para o quarto. Chama ele. Ela acompanhou o fragmento maior desaparecer sob o fogão. A fileira engrossava. As saúvas vinham dos dutos quentes atrás do bar, onde a terra guardava a febre dos equipamentos ligados à rede de inteligência. O datacenter puxava água da bacia e lançava vapor acima do vale. No chão de Antônio, sobrava calor para bicho procurar sombra onde não havia. Eu sei os três pontos, disse Ilva. Você sabe pela tela. Sei pela paralela. Valdo fechou a caixa com a palma. A tampa ficou torta, presa por dentes de formiga e marcas de barro. Nael sabe onde a terra cede, respondeu ele. Ele precisa dormir. E eu preciso chegar no barranco antes de clarear. A frase ficou baixa. Valdo não tocou na porta do quarto. Ilva apontou o primeiro ponto com o dedo sobre a mesa, ao lado do pano molhado. Depois indicou outro, perto do buriti seco. O terceiro seria atrás do depósito, onde a inclinação escondia marcas de passagem. Ela falava com precisão. Era esse o erro. O primeiro pedaço, levado pelas saúvas, já não obedecia ao desenho. A fileira entrava na cozinha, atravessava a sombra sob o fogão e seguia rente à parede. Valdo retirou os dois fragmentos restantes da caixa. Enrolou um na tira de plástico que sobrara das alças e guardou o outro dentro da camisa. Vou pôr dois, falou. O terceiro elas levam para onde quiserem. Se elas levarem até o cabo. Elas já levaram. No quintal, uma nuvem de insetos pequenos rodava em torno da luz de serviço. Caíam sobre a terra, batiam as asas uma vez, depois eram recolhidos pelas formigas. Nael dizia que, antes das sondagens, aquela luz chamava mariposas grandes, de pó nas asas. Agora os insetos vinham curtos e sem cor, criados no calor dos armários e dos dutos. Valdo saiu pelo portão com os pedaços escondidos no corpo. Ilva ficou junto ao fogão, observando a fileira entrar na rachadura da cozinha. Poderia acordar Nael. Poderia mandar Valdo esperar. Em vez disso, puxou a bacia para cobrir a fresta maior, deixando uma abertura estreita para as saúvas seguirem sem voltar ao quarto.
A solução preservava o sono de Nael e entregava o caminho da casa. Quando Valdo retornou, o escuro tinha afinado sobre o barranco. Trazia barro nas canelas e a camisa marcada por uma linha de terra mais clara. Colocara um fragmento perto do buriti, outro atrás do depósito. No terceiro ponto, encontrou uma raiz antiga atravessando o solo e precisou cavar mais fundo. A raiz correu na direção da cozinha. Ele não falou de imediato. Sentou na cadeira vazia e ficou olhando a bacia sobre a fresta. A empresa vai ler os dois pontos, disse. Mas o que elas levaram está embaixo da casa. Ilva percebeu então que a paralela guardava três posições falsas e uma quarta, feita por patas pequenas, sem voz e sem acordo. A raiz que Valdo tocara continuava sob a terra, procurando o mesmo escuro para onde as saúvas tinham levado o cordão.
Energia e água
| Geração | 72.772 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~146 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.856 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |