A CROSTA CINZENTA
O ruído dos dutos chegou antes dos homens. Uma nota baixa, contínua, que fazia a água no copo de Antônio tremer junto à borda. Ilva afastou o copo da mesa e dividiu a porção reservada em três partes. A menor continuou coberta. A segunda foi para perto da porta. A terceira ficou diante da cadeira vazia de Nael. Quando ele entrou, trazia barro até a canela e o bolso da camisa aberto. A massa de milho havia desaparecido. Valdo vinha atrás, sustentando o indicador ferido longe do corpo. Nenhum dos dois falou enquanto Ilva fechava a porta. Ela olhou primeiro os pés, depois as mãos. Na sola da sandália de Nael havia uma crosta cinzenta cortada por uma linha azul. A poligonal marcara o caminho com um composto óptico que as câmeras de rastreamento reconheciam por até dois dias. Na casa, a marca parecia poeira molhada. Tira isso antes de passar pela cozinha, disse ela. Nael apoiou o pé no batente. Ilva trouxe um pano quase seco e o deixou no chão. Ele esfregou a sola uma vez. O azul se abriu em três riscos. Na segunda, passou para o pano. Na terceira, ficou mais claro, porém não sumiu. Valdo fechou a porta com o calcanhar. A equipe chegou quando a gente já estava na estaca, disse. Mandaram Nael andar primeiro. Até onde, perguntou Ilva. Até ele parar. Nael puxou a cadeira, mas não se sentou. A marca na sandália tocaria a travessa inferior. Ele ficou de pé, diante da porção que ela separara. Na estaca, o homem da coleta não pedira nomes. Colocara duas hastes no chão e acompanhara a caminhada de Nael por uma lente presa ao peito. Cada vez que o velho reduzia o passo, Valdo seguia adiante, fingindo conhecer a direção. Na terceira pausa, encontrou uma vala recente. Na quarta, uma pedra oca. Na quinta, a lente virou para o sul, onde a casa enterrada começava a caber sob a camada seca. Você parou cinco vezes, disse Valdo. Quatro. Cinco. A última foi quando ele falou da perfuração. Nael passou a língua nos lábios e olhou para a comida. Ilva empurrou a porção da cadeira vazia para o centro. Na casa de Antônio, quem chegava de fora comia depois de dizer quantos voltariam. Era uma conta anterior ao bar, mantida mesmo quando sobrava apenas alimento para repartir a ausência. Quantos vêm, perguntou ela. Dois da coleta, disse Valdo. Três, corrigiu Nael. O da lente ficou lá. Ilva dividiu novamente a parte maior. Quatro pedaços ocuparam o prato, um para cada pessoa dentro da casa e outro para Antônio. Nenhuma porção foi destinada aos que vinham. Valdo percebeu e puxou a cadeira para longe da mesa, abrindo espaço junto à porta. Ouvi uma coisa na estaca, disse ele. O homem da lente contou que, num condado da Flórida, proibiram datacenter de inteligência por um ano. O povo foi falar e segurou a obra. Proibiram todos, perguntou Ilva. Ele falou os de inteligência. Depois falou armazém de dados. Pode ter confundido. Nael pegou um pedaço de milho. Não levou à boca. O vapor do datacenter cobriu por instantes a luz da janela. Nos lugares que aprenderam a suspender uma construção, a pausa ganhou fotografia e prazo. Dutos antes do prédio, sondagem antes da licença, captação antes do nome. Quando viesse a consulta, a infraestrutura já teria sede. Valdo sentou. Com a mão boa, partiu sua porção e devolveu metade ao prato de Antônio. Se lá pararam depois de ouvir gente, alguém daqui vai querer fazer igual. Quem contou isso ao homem, perguntou Ilva. O comprador da rota. Disse que agora todo contrato precisava provar que a comunidade foi ouvida. Nael enfim comeu. Mastigou sem tirar os olhos da sola manchada. A empresa usara sua caminhada para desenhar a aproximação da casa, e agora precisava de vozes para declarar que o caminho fora conhecido em conjunto. Ele puxou o pano do chão e cobriu os riscos azuis. Ilva recolheu o copo de Antônio. Distribuiu metade da água entre Valdo e Nael, deixando o restante no fundo. Valdo bebeu primeiro, apenas um gole, e passou o copo. Nael encostou a boca, mas parou. Eu falei lá, disse. Falei que a curva terminava na estaca. Terminava, repetiu Valdo. O homem perguntou quem morava depois. Ilva manteve o copo suspenso. O que você respondeu, perguntou. Nael colocou a água sobre a mesa. Baixou os olhos para o pano sobre os riscos azuis. Do lado de fora, passos começaram a medir a rua. Ilva retirou a parte de Antônio do prato, levou-a para o quarto e voltou com uma bacia vazia. Pôs a bacia sobre a marca azul, pressionou-a com o pé e arrastou cadeira e mesa para junto da porta.
Energia e água
| Geração | 52.166 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~104 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.256 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |