O ARCO DE FULIGEM
Come primeiro quem sai antes da luz, disse Nael, puxando a tigela de Valdo para perto da panela. Havia pouca mandioca no caldo e três pedaços de pequi. Ilva os distribuíra conforme a ordem da manhã. Valdo faria uma entrega no pátio, ela atravessaria a vila para buscar uma película médica, Nael ficaria no quintal, junto da muda. O fundo da panela recebeu água suficiente para soltar a crosta do milho queimado. Essa água engrossara o jantar. Valdo devolveu a tigela ao centro da mesa. A entrega não paga uma refeição. Paga uma parte, disse Ilva. Depois do desconto da rota, outra parte cobriria a retenção do alicate. O restante compraria menos da metade do preparado nutritivo que o pátio exigia dos motoristas em serviço. O preço subira naquela tarde. Compradores de longe estavam acumulando ímãs e concentrados em reservas próprias, e cada peça magnética usada nos veículos, nas bombas e nas cozinhas tinha adquirido o valor de uma pequena ameaça. A empresa chamava aquilo de segurança de fornecimento. Na casa, significava raspar uma panela para três. Nael empurrou a tigela outra vez. Você vai comer. E você vai ficar olhando. Eu fiquei muito tempo olhando os outros levarem. Valdo segurou a borda, mas não trouxe a comida para si. O indicador coberto pela película endurecia quando ele fechava a mão. De perto, a proteção tinha escurecido com poeira e sangue seco. Ilva serviu metade do próprio caldo na tigela de Nael. Ele percebeu, retirou um pedaço de mandioca e o colocou de volta na dela. Quem saía primeiro recebia mais, quem mancava recebia o pedaço macio, quem cozinhava raspava o fundo. Antônio costumava esconder a melhor parte sob o caldo quando queria que alguém permanecesse até mais tarde. Naquela noite, sua tigela continuava virada para baixo. Valdo comeu duas colheradas. Parou na terceira. Se eles mostrarem a linha amanhã, eu preciso responder na hora. Até a estaca, disse Nael. A linha passa adiante. A colher raspou a cerâmica. Do quintal vinha o ruído das saúvas sobre a tela, milhares de patas miúdas procurando a falha que o calor do alicate fechara. A muda sem folhas projetava no chão uma sombra curta, menor que a mão de uma criança. Ilva ergueu a tampa dobrada da panela e apoiou-a de lado. No metal queimado havia um arco de fuligem, interrompido onde a água soltara a crosta. Nael acompanhou a curva com o olho. Valdo aproximou a própria tigela da tampa. A estrada cobrada seguia reta depois da estaca. A curva narrada por Nael desviava para a esquerda e desaparecia antes da casa enterrada. Ilva pôs uma semente de pequi no ponto da estaca. Usou três caroços de milho para marcar o poste, a vala e o buriti. Nenhum aparelho entrou naquela disposição. A mesa bastou. Valdo passou a colher pela linha reta. Ela atravessou o arco escuro. O que havia aqui, perguntou. Nael mastigou antes de responder. Fogo. A resposta deixou entre eles uma distância do tamanho da tampa. Durante os anos em que guiara máquinas de sondagem, ele aprendera a vender caminhos por metro. Agora cobrava silêncio no ponto exato em que a terra ainda lembrava quem dormira sobre ela. Ilva girou a tampa. O arco perdeu a forma de construção e virou uma camada larga. Cinza compactada muda a leitura térmica, disse ela. A rota pode ter seguido uma faixa fria e tratado como passagem o que está soterrado. Sem dizer o que era. Sem dizer. Valdo comeu a terceira colherada. Depois tomou um dos grãos e o colocou além da semente. Preciso de uma distância. Nael cobriu o grão com dois dedos. Isso fica comigo. Então eles mantêm a cobrança. Nael retirou os dedos. O grão continuou no mesmo lugar, mas a marca de gordura ao redor dele parecia uma pequena fronteira. Doze passos depois da estaca, disse. A camada começa ali. Você chama de solo alterado. Se pedirem profundidade, volta. Valdo contou os caroços, depois mediu a distância com a colher. A prova caberia numa frase curta. O segredo dependeria de ele não acrescentar outra. Comeu até deixar um dedo de caldo. Empurrou a tigela para Nael. Quem fica acordado come por último, disse. Vou dormir. Você sempre erra a chuva quando quer companhia. Nael levou a tigela à boca. Lá fora, o céu sobre Buritaçu tinha o branco imóvel das torres do datacenter. Ele apontou para uma nuvem baixa. Chove antes da sua entrega. Valdo se levantou, mas deixou uma das caixas térmicas recusadas junto à porta. Se chover, eu levo. E se não chover. Volto para buscar. No quintal, as saúvas abriram uma passagem sob a tela. A primeira encontrou o caule nu, subiu até a ponta cortada e permaneceu ali, com as mandíbulas vazias sob a luz branca.
Energia e água
| Geração | 50.703 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~101 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.693 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |