A ESTACA PARTIDA
A tampa da panela bateu duas vezes antes de Nael tirá-la do fogo. Dentro, o milho estourava em poucos grãos, seco demais para abrir todos. Valdo riu quando um saltou pela borda e caiu perto do pé dele. Esse fugiu da cobrança, disse. Nael pegou o grão do chão, soprou a poeira e entregou a ele. Você comeu foi a estrada. Ilva deixou a colher sobre a mesa. Pela porta aberta, a tela em torno da muda recebia as saúvas como uma parede recebe chuva. Elas subiam, desciam, voltavam ao mesmo ponto da emenda aquecida. Mais longe, os dutos do datacenter cortavam o fundo dos quintais, presos às casas antigas como veias que escolheram outro corpo. A inteligência crescia em salas frias e deixava ali o metal, o calor e os insetos procurando uma folha. Valdo pôs a mão diante do painel doméstico. Pediu o extrato de percurso, o registro que separava cada cobrança pelo caminho atribuído ao corpo de quem devia. A tela abriu três linhas sobre a mesa. Mapeamento inconcluso. Retenção de ferramenta. Recomposição de rota. A última custava mais que as duas primeiras juntas. Valdo aproximou o rosto. Valdo passou o dedo pela terceira linha, mas o painel recuou sob a proximidade. Essa eu não fiz, disse. Fez alguma, respondeu Nael. Ilva olhou as linhas sem tocar na tela. A cobrança tinha sido criada no instante em que Valdo saiu da poligonal. O percurso mostrado começava no arco azul, seguia pela curva de baixo e acabava perto da estaca partida. Depois avançava por uma faixa reta que atravessava o lugar onde Nael parara de falar. A faixa atravessa a casa, disse ela. Valdo não respondeu. Ficou com a boca fechada, olhando o desenho verde correr sobre uma terra que não aparecia no mapa. Nael empurrou a panela para o centro da mesa. Comeu dois grãos queimados, mastigando devagar. Quando jogava no terreno atrás do bar, apostava com Antônio a hora da primeira chuva. Escolhia sempre uma nuvem mais fraca do que a outra, só para prolongar a conversa até escurecer. Naquela noite, apontou o céu pela porta. Vai chover do lado da serra. Valdo olhou para cima. Não havia serra visível, só o reflexo branco das torres de resfriamento, parado sobre as nuvens baixas. Você erra até quando não vale nada. Vale milho, disse Nael. Ilva abriu o espelho frio sobre a mesa, entre a panela e o painel. A paralela recebeu a data, a hora e a imagem parada do trajeto cobrado. Ela não pediu que Nael contasse a casa. Pediu somente a curva prometida. Até a estaca, falou ele. Até a estaca, repetiu Valdo. Nael descreveu o barranco raspado, a vala seca, o poste torto que inclinava para o buriti sem folhas. Disse onde o veículo devia reduzir, onde a roda afundaria se saísse da marca clara. Parou diante da estaca partida, uma lasca de madeira presa ao chão por uma raiz antiga. A voz dele ficou guardada ao lado do desenho verde. Valdo então pediu contestação vinculada. O painel exigiu autenticação corporal e exibiu o aviso da concessionária. Ao confirmar, ele autorizaria uma revisão do cálculo, mas perderia a possibilidade de negociar desconto direto com a empresa de aluguel. O pátio pagava menos a quem discutia uma rota. A mão dele pairou diante do leitor. Se fizer isso, disse Ilva, eles vão querer saber o que tem depois da estaca. Valdo puxou a mão até o peito. Nael encostou a panela no canto da mesa. A última parte do milho queimado deixou um círculo escuro na madeira. Você não dá a casa. Eu não dei. Valdo aproximou a face. O painel leu a pele, os vasos, o cansaço em volta dos olhos. A contestação entrou no registro de sistema com as três cobranças presas à rota impossível. A empresa de aluguel teria de mostrar o cálculo antes de descontar a próxima entrega. A primeira linha mudou de cor. Pagamento parcial autorizado. Valdo tinha cedido uma fração do próximo serviço para manter abertas as outras duas. Na tela, a estrada verde permaneceu atravessando a casa enterrada. No quintal, uma saúva alcançou a ponta da tela, parou junto ao metal ainda morno e seguiu pela sombra da muda de pequi.
Energia e água
| Geração | 178.214 tokens em 9 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~356 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 61 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.832 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |