A TREMPE DE FERRO
A trempe estava enterrada sob uma camada de areia fina, atrás de três caixas vazias e de um tubo que já não levava nada a lugar nenhum. Antônio puxou o ferro pelas duas pontas. Veio junto um cheiro de gordura antiga, preso no barro escuro da cozinha de trás. Nael reconheceu a peça antes de ela sair inteira. Era do fogão baixo que ficava ali quando o bar ainda tinha três mesas e um refrigerador escondido sob a mesa da cozinha. Ele se agachou perto do buraco aberto no piso e passou os dedos pela borda circular da fornalha. A cinza tinha endurecido como pedra. Ainda serve, disse. Célia ficou junto à porta do depósito, apoiada na parede áspera para aliviar o pé. Antônio olhava a linha óptica vibrando dentro da abertura, azul e estreita, como se o chão respirasse por ela. O vínculo da hospedaria com aquele cabo já havia comido a energia do fogareiro. Restava uma unidade de preparo, presa à visita que começaria sob seus pés. No salão, a projeção da concessionária mudara de cor. A tarifa técnica subira durante a noite. O consórcio do datacenter incluíra no cálculo um aditivo de refrigeração. PFAS, compostos que afastavam a água dos circuitos de resfriamento e deixavam no preço uma sujeira que ninguém via. A troca poupava captação naquele turno e espalhava a cobrança pelas linhas ligadas ao empreendimento. Antônio leu duas vezes. Depois virou o rosto para a fornalha. A última unidade vai embora antes de clarear, disse Célia. Antônio confirmou a liberação com a íris. Foi até o volume embutido, tirou duas porções seladas de milho e uma tigela de massa já seca nas bordas. Encostou as porções no peito por um instante. Nael encontrou, no fundo do depósito, um feixe de talos guardados desde a última colheita que não vingara. Quebrou um contra o joelho. O som seco ocupou a cozinha. Ilva chegou do quarto dos fundos com a faixa da perna marcada por uma linha vermelha. Viu a trempe, a fornalha aberta, o milho sobre a bancada. Não perguntou de onde tinham tirado aquilo. Abaixou-se e retirou do barro um ninho vazio de cupim, duro e oco, que serviu para proteger a chama do vento que entrava pela fresta. A primeira faísca não pegou. Nael raspou a cinza com uma colher velha, abriu um vão menor entre os talos e soprou devagar. A brasa apareceu no fundo, vermelha, depois laranja. Antônio encaixou a trempe sobre a boca de barro. O ferro balançou uma vez e encontrou apoio em três pontos. Quando era menino, disse ele, minha mãe fazia milho aqui antes de abrir a porta. Nael ergueu os olhos. Havia muitos anos naquele antes, alguns vendidos por metro de estrada, outros soterrados sob o depósito. Ele tirou uma pedra chata de perto do cabo óptico e colocou sob uma das pernas da trempe. O ferro parou de ceder. Célia abriu uma das porções e despejou os grãos numa panela rasa. Ilva separou um dedo de água do recipiente comum, só o bastante para umedecer a massa endurecida. A água chiou ao tocar o metal quente. Nenhum deles comentou o vapor. Ele subiu baixo, cheirando a milho e barro, e se perdeu entre os dutos presos à fachada. Os servidores de inteligência artificial receberiam seu resfriamento químico sem escutar aquela panela. O vale pagaria a diferença no alimento que conseguia aquecer. Antônio levou a mão ao rosto, como se procurasse a marca da leitura que o mantivera preso à hospedaria. Depois tirou do ar uma mensagem para o filho. A voz gravada apareceu no espaço entre a cozinha e o salão, curta demais para ser privada. Cheguei de volta. Ele ficou olhando a frase suspensa. Nael mexeu o milho com a colher. Célia não se aproximou do visor. Ilva retirou a massa da panela antes de queimar e dividiu em quatro partes desiguais, deixando a menor perto de Antônio. Manda, disse Nael. Antônio apagou a frase. Recomeçou. Estou aqui quando você quiser falar. Dessa vez enviou. A linha óptica vibrou sob a placa de manutenção. A chama continuou pequena, sustentada pelos talos que sobraram de uma lavoura sem água. Quando comeram, a unidade de preparo permanecia intacta no bar, inútil por enquanto e necessária para depois. Nael recolheu a trempe ainda quente com um pano dobrado e a levou para fora. Pôs o ferro junto ao depósito, onde a terra começava a clarear.
Energia e água
| Geração | 49.235 tokens em 4 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~98 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 109 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~6.013 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |