TRÊS COLHERES DE ÁGUA
As aletas do cartucho faziam um zumbido de mosca grande atrás do bar. Ilva ouviu o ruído enquanto raspava a película endurecida da tigela de Célia com a ponta da colher. A porção havia passado a noite na sombra e chegara à manhã como uma placa amarela, rachada em quatro partes. Ela abriu a vasilha comum. Mediu três colheres de água. A primeira soltou a borda do angu. A segunda entrou nas rachaduras. A terceira ficou sobre a superfície, esperando calor. Ilva levou a tigela ao fogareiro, baixou a chama até ela não tocar o fundo com violência e mexeu devagar. Quando a massa voltou a ceder, guardou a panela vazia no volume da cozinha. Restava água para uma refeição curta. Célia entrou pela porta lateral apoiando a mão na madeira. A tira em volta do tornozelo estava cinzenta de estrada. O rosto dela tinha pó nas sobrancelhas e uma linha de sol mais clara onde o visor costumava encostar. Você voltou, disse Ilva. Voltei porque a estrada subiu de preço. Célia sentou perto do balcão e tirou a sandália. Não pediu ajuda. Ilva trouxe uma bacia seca, uma membrana limpa e o descontaminante. Cortou a membrana em duas tiras estreitas. Limpou a pele ao redor da bolha sem encostar no centro aberto. Esperou o líquido perder o brilho. Cobriu a ferida, prendeu uma tira sob o pé e a outra acima do tornozelo. A membrana que sobrava caberia num corte pequeno, desde que ninguém precisasse dela antes da noite. Na subida, as cargas passaram primeiro, disse Célia. O painel da estrada reduziu passagem civil até a poeira baixar. Você viu o traçado. Vi caminhões que não eram da mina. Ela pegou a tigela e soprou uma vez sobre o angu. Comeu depressa, depois mais devagar, como se o corpo tivesse entendido que a comida acabaria antes da fome. Nael apareceu na porta com o cabelo ainda marcado pelo sono. Olhou para Célia, para a tigela, para as duas tiras novas em seu pé. Nael passou o polegar na sola rachada do próprio pé. Célia riu com a boca fechada. Nael apontou para o cartucho. A lata continua tremendo, disse ele. Fez três gotas, respondeu Ilva. Então está melhor que o Lajes. Os três riram baixo. O bar fechava comida, mantinha o refrigerador travado e não tinha freguesia, mas por alguns segundos Nael imitou o ruído das aletas com a garganta. Célia tentou acompanhá-lo. Errou a nota duas vezes. Na terceira, parecia uma galinha zangada. A risada dela saiu inteira e ficou no cômodo, sem servir a nada. O painel do bar acendeu sobre o balcão. Contato familiar aguardando responsável do endereço. Ilva parou com a colher no ar. Célia abaixou os olhos para a tigela. Nael foi até a janela, onde a poeira da estrada tinha assentado nas folhas do buriti. A projeção pediu reconhecimento facial. Ilva aproximou o rosto. A cozinha foi aceita como extensão temporária de sua custódia. Uma linha surgiu abaixo do nome de Antônio. Seu pai chegou ao ponto de passagem. Ela leu outra vez. Não havia áudio. Havia uma pergunta convertida em texto e uma marca de urgência baixa. Ele segue para a capital ou volta. Célia largou a colher. Ele chegou onde. No primeiro abrigo da estrada, disse Ilva. Isso é pouco caminho. É mais do que tinha água. O painel abriu duas respostas. Confirmar viagem. Solicitar retorno. Ilva olhou para a vasilha comum fechada, para a tigela que Célia segurava com as duas mãos, para a membrana cortada ao meio sobre a bancada. Antônio saíra com menos de metade do necessário e deixara a casa como quem deixa uma frase pela metade. Lá fora, uma carreta tomou a curva alta. O visor lateral anunciava prioridade mineral e pagamento antecipado de rota. Ilva tocou a resposta aberta. Ele segue, disse. A confirmação subiu ao painel. Em seguida apareceu outra linha. Contato de voz liberado por seis minutos no abrigo de passagem. Nael virou-se da janela. Ele vai falar. Ilva guardou o espelho frio sob a blusa. Célia terminou o angu, raspando o fundo com cuidado. O cartucho vibrou atrás da parede, trabalhando para devolver à máquina uma água que a casa acabara de gastar em três colheres.
Energia e água
| Geração | 101.156 tokens em 9 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~202 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 108 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~5.750 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |