A CAVIDADE NA SOLA
Ilva escutava pela quarta vez a resposta que ainda não enviara quando Antônio chamou do alpendre. A voz dela saía do painel baixa demais, depois ganhava volume na última palavra, onde a máquina preditiva havia limpado uma hesitação. O homem da outra cidade perguntara se podia vir. Ela respondera que Buritaçu estava quente, que a hospedaria não servia comida, que talvez fosse melhor esperar. O canal mantinha as duas respirações e descartava o intervalo entre elas como ruído. Nael esperava atrás de Antônio, com a sandália aberta pendurada por dois dedos. Restavam cinquenta e nove horas para a visita ao traçado. O consórcio autorizara a aproximação da poligonal, mas exigia um acompanhante com histórico de campo reconhecido. Ilva apagou a resposta. O painel preservou uma cópia auditável por trinta dias. Entrem, disse ela. A faixa luminosa da soleira acendeu sob os pés de Antônio. A casa permanecia sob revisão de ocupação desde a visita de Tiago, e cada corpo precisava declarar motivo antes de cruzar. Antônio aproximou o rosto do leitor. Informou preparação de percurso. A luz percorreu as pálpebras dele, encontrou a garantia já entregue e liberou sua entrada por quarenta minutos. Nael avançou. O leitor pediu vínculo. Convidado, disse Ilva. Convidado não habilitado para atividade territorial, respondeu a casa. Ele segurou a sandália contra o peito. A presilha retirada dela deixara uma cavidade escura na sola, larga como a ponta de um dedo. Do outro lado da soleira havia sombra, uma jarra com menos de um copo de água e o banco onde ele costumava separar grãos ruins do milho. A distância até esse banco era menor que um passo. Ilva abriu as permissões domésticas. O perfil de acompanhante antigo aparecia suspenso desde que a estrada proibida fora incorporada à área operacional. Havia uma alternativa. Dependente temporário poderia entrar sob responsabilidade da moradora e usar o histórico territorial dela durante um deslocamento assistido. Quanto tempo, perguntou Antônio. Noventa dias de vínculo, respondeu o painel. E para sair? A moradora encerra. Nael olhou para Ilva. Ela já havia selecionado a opção. A autorização da visita perderia validade antes que a revisão do perfil dele chegasse ao primeiro atendente, e a garantia de Antônio seria convertida em custo administrativo. Três semanas de gelo vendido no bar, calculou a cobrança projetada. É só para atravessar hoje, disse ela. O leitor exigiu a íris de Nael. Ele inclinou o rosto, errou a altura, tentou outra vez. A moldura amarela se estreitou até caber no olho esquerdo. Ilva autenticou com a digital. A soleira mudou para azul. Nael entrou. A casa anunciou vínculo doméstico ativo. No mesmo instante, a declaração de percurso perdeu um dos dois validadores independentes. O painel marcou Nael como pessoa protegida por Ilva, portanto ligada à fonte técnica que sustentaria a contestação. A visita continuava permitida, mas o consórcio acrescentou a exigência de uma terceira testemunha sem relação residencial. Ilva leu a mudança. Não voltou à tela de encerramento. Tire a sandália, disse ela. Essa sola abre antes da subida. Sentaram-se à mesa. Ela aqueceu uma lâmina de reparo no fogareiro e cortou uma tira de material da própria faixa de sustentação, na parte que já não tocava a ferida. Nael observou a tesoura avançar pelo tecido rígido. Não pediu que parasse. Antônio abriu no painel a lista de testemunhas aceitas. Divina aparecia impedida por responsabilidade compartilhada na coleta. Edna constava como agente técnico interessado. Osmar podia validar, desde que a harmonização territorial autorizasse sua ausência. A autorização custava mais do que restava no saldo de Antônio. Ilva encaixou a tira na cavidade da sandália. Apertou as bordas aquecidas até a sola fechar sobre o reforço. Na terceira pressão, o tecido absorveu uma mancha escura e endureceu. Nael calçou. Caminhou da mesa à porta, voltou, arrastou o pé para testar. A emenda resistiu.
Ao lado do fogareiro, o canal auditado abriu sozinho a mensagem do homem da outra cidade. A pergunta continuava ali. Se eu for, você me deixa entrar. Ilva afastou a projeção com o antebraço. O painel deslocou a voz dele para cima da lista de testemunhas, onde as duas esperas passaram a ocupar a mesma luz. Antônio encontrou uma possibilidade. O consórcio aceitava morador sem vínculo contratual, desde que a entrada na área fosse autorizada por alguém incluído na declaração original. Ilva escolheu o nome de Nael antes que ele lesse as condições. Ao autorizar outra pessoa, ele perderia o direito de falar durante a visita. Sua memória serviria apenas como trajeto. Pedra oca e bica poderiam ser apontadas, nunca ditas por ele. Olhe para mim, disse ela. Nael permaneceu de pé. O prazo caiu para cinquenta e oito horas. Lá fora, o calor curvara as folhas novas do buriti para o lado da casa. Uma câmera de rastreamento girou no beiral e encontrou a porta aberta. Ilva esperou a íris dele confirmar a cessão. Nael passou pela soleira azul, agora autorizado a conduzir e proibido de testemunhar. Antônio saiu depois. Nenhum dos dois se despediu. A pergunta do homem tornou a soar na cozinha vazia. Se eu for, você me deixa entrar. Do alpendre, Nael falou sem olhar para trás. A pedra oca vem antes da bica.
Energia e água
| Geração | 71.034 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~142 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 108 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.375 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |