A TERCEIRA TIRA
O armário pediu quarenta e seis segundos de silêncio técnico antes de abrir a auditoria. A hélice cumpriu quarenta e três. Nos três restantes, uma vibração subiu pelo duto e fez a caixa de ventilação estremecer sob o alpendre. O Cantochoro da encosta não saiu. Ficou sobre os ovos, apertado entre capim seco e fios plásticos, enquanto o ruído entrava no canal que a concessionária chamava de prova limpa. Ilva segurou o terminal recolhido contra o peito. A tela mostrava o trecho da conversa incorporado ao serviço. A pergunta dele sobre sua perna vinha marcada em azul. Sua resposta, em amarelo. A inteligência artificial de auditoria separara as duas vozes, medira as pausas, retirara a respiração antes das palavras e oferecia três destinos para o material. Retenção contratual. Uso de treinamento acústico. Harmonização por irrelevância operacional. O harmonizador aguardava junto ao balcão. Trazia a manga dobrada até o meio do antebraço, onde a pele mais clara não conhecia a poeira do vale. Observava a hélice como se esperasse um número errar por conta própria. A auditoria não fecha com esse ruído, disse. Renan estava sentado no chão, perto da caixa de ferramentas bloqueada. Quando ouviu a hélice perder outra volta, levantou o rosto. Antônio mantinha os dois dedos queimados dentro de uma caneca vazia, para impedir que a pele encostasse na bancada. Célia apoiava o pé protegido sobre uma cadeira, o visor desligado entre as mãos. O harmonizador abriu no ar um catálogo de peças. Havia uma bobina de fio magnético disponível no depósito regional, vinda de uma reserva criada para evitar que motores de aeronaves e equipamentos de vigilância parassem por falta de mineral. A bobina aparecia pequena, suspensa sobre a madeira do balcão, enrolada em espiras de cobre e liga rara. Custava vinte e quatro unidades de estabilidade. Antônio leu o valor duas vezes. Com isso eu compro quanto tempo de bar aberto, perguntou. A concessão não oferece equivalência comercial para atividade suspensa, respondeu o harmonizador. Ele sabia que a pergunta não receberia conta. Mesmo assim, deixou a projeção diante dos olhos do homem até que ela apagasse sozinha. Renan apontou para a parte baixa do armário. O eixo está puxando para dentro. Se troca o anel de alinhamento, a bobina não resolve. O harmonizador olhou para ele e depois para o perfil cinza que flutuava junto ao nome. A manutenção estava suspensa. A bobina podia ser adquirida por um morador responsável, desde que um acesso técnico ativo aceitasse a instalação. Não havia acesso técnico ativo no bar. Ilva colocou o terminal sobre o balcão. A marca azul da pergunta pessoal continuou acesa. Quanto custa tirar o áudio da auditoria, perguntou. O harmonizador aproximou a face do painel. A proposta apareceu sem demora. Ela poderia autorizar o uso de noventa segundos de seu acervo vocal como compensação de treino. O trecho pessoal sairia do processo de serviço e entraria num conjunto de ajuste de linguagem afetiva para atendimentos automatizados da concessionária. A relação deixaria de ser prova contratual. Viraria matéria de máquina. Célia passou o polegar pela borda do visor até a pele ficar branca. O harmonizador virou o rosto para a jornalista. A palavra apagar não consta na oferta. Constava na boca dele. A faixa azul diminuiu até caber num ponto junto ao nome de Ilva. Antônio puxou a caneca vazia para perto. Guardava ali uma pequena caixa de primeiros socorros do bar, liberada apenas para cortes de trabalho e queimaduras classificadas. Tirou uma tira de malha mineral, fina como gaze e resistente ao calor. Restavam duas. A concessionária reduzira a entrega mensal porque o material seguia reservado para equipamentos de alta prioridade. Ele rasgou uma em três partes iguais. Ilva olhou para os dedos dele. Não gasta isso comigo, disse. Não é com você. Ele pediu que Renan aproximasse a mão. O técnico hesitou. A faixa roxa no antebraço tinha descido até o pulso, e a pele endurecida deixava os dedos meio fechados. Antônio despejou quatro mililitros de descontaminante na caneca, mergulhou a ponta da malha e limpou primeiro a base do polegar, depois a dobra do punho, depois a área onde a mancha encontrava a pele seca. Esperou o líquido evaporar. Enrolou uma tira sem apertar. Passou a segunda por cima, cruzando as fibras para impedir que o braço puxasse contra o metal. A terceira ficou na caneca. A primeira malha aderiu. A segunda fechou o tremor dos dedos. Renan abriu e fechou a mão duas vezes. Depois alcançou o armário sem tocar na caixa de ferramentas. Usou a unha para afastar a grade interna e escutou a hélice. Antônio perdeu uma das duas tiras restantes para manter vivo o braço de um homem que não podia trabalhar. O painel registrou consumo médico de estoque compartilhado e reduziu a prioridade de reposição do bar. O harmonizador esperou a confirmação corporal de Ilva. Ela não ofereceu a face. A bobina fica para quem, perguntou Antônio. Para o responsável que adquirir. E quem instala. A resposta demorou um segundo a mais que as outras. O cadastro pode avaliar exceção. Renan encostou o ouvido na chapa. A hélice raspava num ponto breve, uma vez a cada giro. Ele indicou a caixa de ventilação com o queixo. O pássaro continuava imóvel lá dentro. Se a rotação caísse, a captura ampliada voltaria. O ninho entraria no mapa. Ilva abriu o canal do homem de outra cidade. Havia sete mensagens antigas, cada uma com o brilho de escuta confirmada. Ela escolheu a mais curta, aquela em que ele falava sobre uma chuva que não chegara à rua dele. Levou o terminal à boca e disse que autorizava o uso dos noventa segundos. A tela retirou o áudio da auditoria. Em seguida, pediu que ela aguardasse a classificação do material cedido. Antônio pegou a terceira tira de malha mineral e estendeu a mão para Renan. Renan aproximou a mão do eixo.
Energia e água
| Geração | 72.896 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~146 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 60 Wh só na placa de vídeo (4090) | medido na GPU |
| Tradução | ~8.512 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |