A CROSTA NO ANEL
A chave de boca escorregou uma vez no sextavado e abriu a pele do dedo de Edna. O sangue apareceu sob a poeira mineral, uma linha curta, logo escurecida pelo calor da caixa de passagem. Ela apertou o pano contra a mão, encaixou de novo a ferramenta e girou para a esquerda até o metal ceder com um estalo baixo. A caixa ficava junto à rua alta, enterrada até a metade sob o barranco que a chuva antiga tinha aberto. Acima dela, os dutos da mineradora seguiam presos à fachada de adobe da antiga casa de bombas, com cabos grossos subindo pela parede e entrando no armário refrigerado. A terra em volta guardava marcas de pneus fundos, mas nenhuma umidade. Nael teria dito que ali crescia capim até o joelho quando guiava as primeiras máquinas. Agora as raízes do capim vinham secas, finas, misturadas ao pó claro. Sales permanecia a dois passos, vendo pelo painel corporal a cobrança de onze dias diminuir devagar. Não lhe devolveram o visor, nem a escala. Deram-lhe uma tarefa de campo que dispensava comando técnico e exigia costas, joelhos, mãos. A válvula de redução estava travada por uma crosta amarela. A água da vila baixa chegava ali antes de se dividir pelos ramais, e a crosta fechava a passagem como uma língua endurecida. Edna introduziu a lâmina curva no vão do anel, raspou o primeiro círculo e recolheu os pedaços numa bandeja de contenção. Não podia deixar resíduo no chão. Qualquer fragmento levado pelo vento entraria no registro de risco sanitário e devolveria a culpa ao morador que abrisse a torneira seguinte. Mariana veio pela rua com a vasilha térmica pendurada no braço. O quinto turno de compensação ainda a mantinha perto das bombas. Parou sem cumprimentar ninguém, ajoelhou ao lado da caixa e segurou a lanterna de manutenção sobre o encaixe. A luz revelou uma rachadura no anel interno. Se tirar de uma vez, disse Mariana, a pressão come a borda. Edna conhecia a ameaça. Tirar pouco preservava a peça, mas mantinha a água presa. Tirar demais podia abrir a linha e despejar no barranco o que faltava nas casas. Ela passou a lâmina deitada, quase sem força, como fizera anos antes nos condutos provisórios da lavra, quando ainda acreditava que um cálculo bem resolvido bastava para dar destino à água. Do outro lado da rua, Antônio descarregava gelo no bar da associação. Os cubos chegavam dentro de uma caixa térmica vinculada ao saldo dele. Tirou um deles com a pinça, envolveu num pano e o ofereceu a Edna. Ela olhou para Sales. A compensação médica não cobre, disse ele. Antônio voltou com o gelo para dentro. O bar guardou aquele frio para quem pudesse pagá-lo. Dizem que lá fora vão dar direito aos datacenters, falou ele da porta. Direito de puxar energia primeiro, direito de escolher a água antes da cidade. Sales ergueu os olhos do painel. É boato, disse. Antônio encolheu os ombros. Boato também muda preço. A lâmina encontrou uma cavidade. Edna puxou um bloco de crosta maior que a palma da mão. A pressão soprou por baixo, quente, carregada de areia fina. Mariana fechou os dedos sobre o aro externo para impedir que ele saltasse. O jato atingiu o pulso de Edna, lavou o sangue e abriu outra vez a pele já ferida. A inteligência artificial que revisava os contratos térmicos tinha acabado de mandar uma notificação para Sales. Ele leu sem mover o rosto. O lote de refrigeração do datacenter receberia prioridade energética naquela tarde. A bomba doméstica perderia força para sustentar a temperatura das máquinas. Mariana viu a mudança de cor no painel dele. Vai cair, perguntou. Sales demorou um segundo a mais do que precisava. A curva será ajustada. Edna largou a lâmina dentro da bandeja. Ainda havia crosta no anel, uma faixa estreita, suficiente para impedir que a vazão subisse demais quando a bomba fosse comprimida. Mariana compreendeu antes de ouvir. A reparação podia terminar limpa, e a vila receberia por alguns minutos uma água que logo seria retirada pela nova prioridade. Também podia ficar incompleta, deixando a redução material inscrita na peça, fora da frase que Sales levaria. Ela aproximou a chave de boca. Termina, disse Sales. Edna tomou o gelo que Antônio deixara no balcão da caixa, já virando água dentro do pano. Encostou-o no dedo aberto. Depois encaixou a lâmina na crosta restante e raspou apenas metade. A válvula respondeu com um ruído grave.
Nos ramais da vila baixa, as torneiras deram um fio menos fraco. Mariana fechou a tampa da caixa e apertou os quatro parafusos até a mão tremer. Sales registrou serviço parcial e descontou uma manhã da cobrança de Edna. A revisão de seus comandos continuou marcada para depois de dois turnos. Mais tarde, a paralela recebeu a medida da abertura, a crosta recolhida e a redução que permanecera dentro do anel. Também recebeu o boato dos direitos distantes, já transformado em prioridade térmica antes de chegar inteiro ao vale.
Energia e água
| Geração | 130.080 tokens em 8 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~260 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 108 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | ~7.036 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic) | estimado |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a folha sair da impressora |