2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 011 · PRÉVIA

A CUIA LASCADA

Prévia, ainda não impresso

A colher bateu três vezes na borda da panela. Nael esperou o eco morrer na cozinha e bateu mais uma, só para contrariar a conta. Tiago riu com a boca fechada. A membrana sobre a palma esquerda tinha escurecido nas bordas, e ele segurava a tigela entre o antebraço e o peito. Mariana entrou pelo alpendre carregando milho cozido dentro de uma vasilha térmica. Ainda trazia barro nos cabelos. Tinha lavado o rosto, mas uma faixa de terra permanecia junto à orelha, lembrança da chave enterrada na junção. Deixou a vasilha sobre a mesa e escolheu o banco mais perto da porta. Três turnos começavam antes do amanhecer. Em cada um, ela assumiria a manobra de menor vazão, dentro da cabine refrigerada das bombas, enquanto outra operadora receberia as horas externas. O frio pertencia aos equipamentos. A compensação cobraria dela quarenta minutos a mais em cada jornada e entregaria seu corpo ao calor quando o sol já estivesse alto. Ilva pôs cinco tigelas na mesa. Quatro, disse Mariana. Cinco. Eu como em casa. Você trouxe milho. Trouxe para vocês. Nael retirou a tampa da panela. O caldo de pequi tinha engrossado desde a refeição anterior. Ele acrescentou uma concha da água rasa que ficara guardada na tampa metálica e mexeu devagar. A torneira soltara água durante onze segundos naquela tarde, quatro a mais que na inspeção. Encheram dois recipientes, lavaram a membrana de Tiago e separaram o restante para beber. Nenhuma gota entraria na panela depois daquela concha. Na casa, quem trazia comida recebia a primeira tigela. Quem servia ficava com a última, raspada do fundo. Nael colocou o caldo na tigela dela. Mariana empurrou-a para Tiago. A mão dele precisa de comida, disse. A outra funciona, respondeu Nael. Tiago ergueu a direita e mexeu os dedos, exibindo a competência. Ilva quase sorriu. Pegou a tigela destinada a ele, serviu metade numa sexta peça menor, uma cuia de cerâmica lascada que guardava sal, e devolveu o sal à vasilha térmica vazia. Agora são seis, disse Tiago. Cinco e um problema, corrigiu Nael. A risada veio curta, depois cresceu quando a cuia começou a girar sobre a mesa por causa da base torta. Tiago tentou detê-la com o cotovelo. Empurrou mais longe. Na terceira volta, Mariana segurou a peça e o caldo saltou sobre seus dedos. Ela lambeu uma gota. Aceitou a tigela. Comeram sem pressa. O milho estalava entre os dentes, doce apesar dos grãos pequenos. Nael contou que Antônio perdera outra aposta para a máquina preditiva. Apostara em chuva porque o céu amanhecera com duas faixas de nuvens e depois alegara que apostara errado para agradar uma mulher. Ninguém sabia qual mulher. Tiago sugeriu três nomes. No quarto, Nael engasgou e precisou cobrir a boca. Mariana soltou uma nota baixa, quase um reflexo. A voz encontrou a panela, a vasilha, o metal da bacia sobre a mesa e voltou maior. Ela parou antes da segunda nota. Ilva começou a raspar a própria tigela. A gravação mais antiga do coro já desaparecera. Depois dela sumiram outras, uma por hora, até restar apenas a lembrança da mulher que criara Mariana cantando no quintal agora cercado pela mina. A nuvem fizera uma limpeza impecável. Preservara os metadados e eliminara as vozes. Canta o resto, disse Nael. As câmeras da rua recolhiam sons pelas frestas. Dentro da cozinha, todos aprenderam a medir a boca. Mariana puxou a panela para o centro, mergulhou a colher no caldo e iniciou uma batida irregular. Metal contra metal, madeira contra cerâmica, a vasilha térmica respondendo grave. Ilva acompanhou com dois dedos na mesa. Tiago usou a unha da mão direita. Nael entrou por último, fora do tempo. A voz veio por baixo dos ruídos. Mariana cantou uma linha curta, interrompeu, repetiu com uma palavra diferente. Na terceira vez, Ilva já sabia a melodia. Nael guardou as palavras sem aparelho, como guardava curvas e pedras, mas trocou de propósito o nome de uma árvore. É jatobá, disse Mariana. Eu cantei jatobá. Cantou baru. Então a música melhorou. Ela repetiu até ele acertar. O caldo esfriou. Tiago adormeceu sentado, a cabeça inclinada contra a madeira da janela, e Ilva cobriu a mão ferida dele com um pano limpo. Mariana recolheu as tigelas. Lavou cada uma com um dedo de água, começando pela de Tiago, depois a de Nael, a de Ilva e a sua. Quando chegou à cuia lascada, a vasilha estava vazia. Ela limpou o interior com a ponta do pano e deixou a peça virada para baixo.

Vou voltar depois do primeiro turno, disse. Não põe a panela no fogo antes. Ilva separou uma porção de milho e fechou-a no recipiente menor. Mariana levou a comida, mas deixou a vasilha térmica sobre a mesa, garantia doméstica de retorno. Na soleira, o barro seco caiu de seu cabelo em três grãos. Uma formiga apareceu na rachadura, escolheu o maior e o arrastou para a noite.

Energia e água

Geração41.688 tokens em 4 chamadas ao modelomedido
Água~83 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo109 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução~6.900 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic)estimado
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora
Como a conta é feita ↗